Maricy Ribeiro

Cientista social e psicóloga formada pela PUC/SP, professor universitária, gerontóloga e consultora em trabalhos com a terceira idade. Atua como palestrante em cursos nas áreas de desenvolvimento pessoal e qualidade
de vida na maturidade.

Espiritualidade e religião

Como conciliar a vida profissional com a vida pessoal

Espiritualidade e religião

Etimologicamente, espiritualidade significa sopro de vida, encontrar o seu sentido, numa dimensão transcendente (CF> PESSINI> BERTAN ELINI).

 

A procura de um sentido para a existência pode partir de um dogma religioso ou de uma construção interior do indivíduo, elaborada a partir da contemplação e reflexão sobre as experiências da vida.

A espiritualidade pode envolver um sistema de crenças ligadas às religiões tradicionais, mas tem um elemento fundamental de construção do próprio indivíduo.

 

Religião é um sistema de crenças envolvendo símbolos, rituais, cerimoniais que buscam explicar a vida e a morte. É uma experiência de encontro com o mistério, um encontro pessoal que pode ocorrer com as religiões tradicionais ou com uma concepção pessoal de religiosidade.

 

A fé faz parte das religiões tradicionais e da busca pessoal pela religiosidade.

 

A fé está ligada à força espiritual e à busca em acreditar em um sentido maior.

 

Para FOWLER (1992) a fé tem relação com a vivência existencial, é mais subjetiva, relaciona-se com os diferentes estágios do desenvolvimento do pensamento, da compreensão do mundo, da maturidade e da capacidade de refletir sobre a própria existência. É um processo de construção pessoal.

 

O estado de transcendência, ligado ao desenvolvimento da espiritualidade, busca entender o que ocorre fora da esfera pessoal e é muito importante nas situações de crise da vida, como por exemplo, entender porque se ficou doente, o significado do sofrimento, das perdas, separações e a aproximação da morte.

A busca religiosa ao se relacionar com a situação existencial do ser humano, se relaciona também com as questões de vida e morte.

Para FRANKL (1973) a busca pelo sentido é subjetiva e a questão não é dar sentido e sim encontrá-lo, não pode ser inventado, deve ser descoberto. Não há situações sem saída, sempre uma será escolhida; não dar respostas já é uma resposta.

O sentido da vida, também se dá pela percepção da finitude, da morte. Pacientes gravemente enfermos também têm uma escolha: podem comunicar como gostariam que fossem seus últimos momentos de vida e a busca pela transcendência, ou a continuidade do ser a pós a morte.

No século XX, observa-se uma necessidade de expulsar Deus, como se o ser humano pudesse se bastar sozinho. No final do século XX e no início do XXI, observa-se um retorno da espiritualidade e o desenvolvimento de novas religiões.

Na área da psicologia, ampliam-se estudos sobre religião e espiritualidade.

KOENIG (2001) distingue religiosidade extrínseca e religiosidade intrínseca.

Extrínseca é a religiosidade de uma pessoa que usa a religião para alcançar algo “não espiritual”, como encontrar amigos, ter status social, prestígio ou poder.

Intrínseca é a religiosidade das pessoas que têm uma profunda e forte fé interior que é a força motivadora de sua vida, afetando decisões e comportamentos diários e caracterizada por um íntimo relacionamento pessoal com Deus.

 

Para JUNG, espiritualidade refere-se a uma realidade transcendental da alma com a divindade e na transformação que daí resulta, ou seja, diz respeito a uma atitude, a uma ação interna, a ampliação da consciência, a um contato com pensamentos e sentimentos superiores e ao fortalecimento e amadurecimento da personalidade que decorre desse contato. Isso pode ocorrer, por exemplo, por meio da meditação.

 

As experiências espirituais não acompanham necessariamente as confissões de fé ou religiosas. São vivências distintas. Há pessoas espiritualizadas (por exemplo poetas, pintores, músicos etc.) que nunca participaram de organizações religiosas e, pode haver pessoas que regularmente frequentam serviços religiosos e não são espiritualizados. A espiritualidade nos permite perceber que fazemos parte de algo mais amplo que o nosso viver diário.

 

A espiritualidade é “a atividade pela qual o ser humano sente-se ligado ao todo e percebe o fio condutor que liga e religa todas as coisas para formarem um cosmo”. (BOFF, 2000 - pág. 129)

Esse fio condutor recebe vários nomes como: mistério do mundo, fonte originária, Deus.

A espiritualidade pode ser vista como “aquilo que permite que uma pessoa vivencie um sentido transcendente na vida”.

 

Leonardo Boff (2001) concorda que os conceitos de religiosidade e espiritualidade devem ser distinguidos, mas não separados, uma vez que, apesar da religião tratar mais das questões de dogmas, rituais e orações e a espiritualidade relacionar-se com as qualidades do espírito humano, como o amor, a compaixão, a paciência e a tolerância, ambos fundamentam-se na crença das pessoas. Denuncia ele que quando a religião se esquece e se distancia da espiritualidade, surge a violência.

 

A espiritualidade é uma parte complexa e multidimensional da experiência humana.

Expressa-se através de 3 aspectos:

 

1) Cognitivos ou filosóficos: busca pelo significado, propósito e verdade na vida.

 

2) Emocionais: envolvem sentimentos de esperança, amor, conexão, paz interior, conforto e suporte. Refletem-se na qualidade dos recursos internos individuais, na habilidade para dar e receber amor espiritual e os tipos de relacionamento e conexões do indivíduo consigo mesmo, com a comunidade, o ambiente, a natureza e com o transcendental.

 

3) Comportamentais: forma como a pessoa manifesta externamente a sua crença espiritual individual e o estado de espírito interno (ANADARAJAH 2001).

 

A espiritualidade não necessita de condições especiais; pode ser trabalhada individualmente em grupos, com alfabetizados e analfabetos, em diferentes ambientes. Não requer técnicas específicas. (MARQUES, 2003)

 

A espiritualidade coloca questões sobre o significado da vida e da razão de viver. (GASTAND ET AL> 2006)

 

Para os povos antigos como gregos, hindus, egípcios e chineses, a ciência e a espiritualidade andavam juntas e consequentemente, assuntos como música, astrologia, filosofia, religião e artes em geral eram vistos como expressões de uma realidade divina, intimamente ligados portanto.

 

Todas as religiões são mensagens de salvação que procuram responder questões em relação à vida do ser humano, como:

 

• perguntas sobre

 

- o amor e o sofrimento

- a culpa e o perdão

- a vida e a morte

- a origem do mundo

- as leis que governam o mundo

- o nascimento e a morte

- o que rege o destino das pessoas e da humanidade

- a consciência moral e a existência de normas éticas

- a existência de uma vida pós morte

 

As religiões têm a ver com o sentido e não-sentido da vida, com a liberdade e a escravidão das pessoas, com a justiça e a opressão dos povos, com a doença, o sofrimento e a saúde das pessoas.

 

Saúde e salvação: têm uma mesma raiz conceitual e por muito tempo, tiveram o mesmo significado: integridade da existência, totalidade de situações positivas não atingidas pelo mal, doença, sofrimento, e desordem.

 

Na antiguidade, salvação e felicidade não se distinguiam, fluíam conjuntas.

Assim, as religiões procuram salvar o ser humano total, é, nos aspectos físicos, psicológicos e espirituais.

 

A OMS (1946) afirma essa correlação entre saúde e integridade de vida, definindo saúde como “estado completo de bem-estar físico, psíquico, social e não apenas ausência de doença e enfermidade.”

 

O conceito de saúde não é somente físico – biológico, mas envolve a integridade, a totalidade,

a realização plena do ser humano.

 

Para o teólogo Leonardo Boff, o século XXI será um século espiritual que valorizará os muitos caminhos espirituais e religiosos da humanidade ou criará novos. Esta espiritualidade ajudará a humanidade a ser mais corresponsável com seu destino e com o destino da Terra, mais reverente diante do mistério do mundo e mais solidária para com aqueles que sofrem. A espiritualidade da leveza à vida e fará que os seres humanos não se sintam condenados a um vale de lágrimas, mas se sintam filhos e filhas da alegria de viver juntos neste mundo sob o arco-íris da graça e da benevolência divina”.

 

“A ciência sem religião é paralítica; a religião sem a ciência é cega”. Albert Einstein

 

Espiritualidade, Ciências e Saúde

“A espiritualidade pode ser separada tanto do sectarismo vicioso quanto de banalidades irrefletidas. A espiritualidade cheguei a compreender é nada menos que o amor bem pensado à vida”

(Salomon, 2003)

 

(“banalidade irrefletidas e consciência”), que se faz passar por espiritualidade não sectária, tais como a crença no poder das pirâmides, do feng shui, a mediunidade.

 

Salomon defende uma espiritualidade naturalizada. Exemplifica com a música que nos arrebata, permite um escape aos nossos desejos e temores. Também quer que encaremos o mundo como uma criação de Deus, ou como um mistério da própria natureza, que a ciência procura entender; não se pode negar a beleza e a grandeza de tudo: Cadeia de montanhas, desertos, florestas, fenômenos como furacões, terremotos que a natureza nos impõe. Acredita ele que “o lugar para procurar a espiritualidade é aqui mesmo, em nossas vidas e em nosso mundo...”

 

A espiritualidade está presente, também em nosso senso de humanidade, de amizade, de família, em nossas paixões mais nobres especialmente no amor.

 

Salomon defende uma espiritualidade naturalizada e que pode ser redescoberta através da filosofia (pág. 24 Salomon 2033) HARDWIG (2000) entende a espiritualidade como “preocupações em relação ao significado e valores fundamentais da vida. Espiritual, portanto, não significa religioso.

 

BREITBART (2005) considera que a espiritualidade é uma construção formada por fé e sentido.

É aquilo que permite que uma pessoa vivencie um sentido transcendente na vida através de um vínculo com alguma coisa maior do que o próprio eu.

 

VICTOR FRANKL acredita que o sentido na vida está centralizado em 3 principais fontes: a criatividade, a experiência e a atitude.

 

FRANKL destaca três problemas existenciais inevitáveis: o sofrimento, a morte e a culpa.

(Breidanr 2003)

 

O Tempo da Espiritualidade

 

Para Frankl, o sofrimento não pode ser um fim em si mesmo. O sofrimento tem sentido quando se tem um motivo para tal, ou quando se atribui um motivo. Para ele, uma das principais características humanas está na capacidade de elevar-se acima das condições biológicas, psicológicas e sociológicas e crescer para além delas. A busca de sentido na vida é a principal força motivadora do ser humano.

 

Envolvimento religioso e saúde

 

São inúmeras as explicações sobre os possíveis mecanismos envolvidos na relação entre envolvimento espiritual e estado de saúde, como:

- Qualidade de vida

- Recursos econômicos

- Promoção de emoções positivos (por exemplo o perdão)

- Ritos e crenças que possibilitam as pessoas religiosas a viverem com menos stress que as

não-religiosas

 

Os pesquisadores trabalham mais recentemente com a interação entre sistemas imunológico, neurológico e psicológico, e os benefícios que o envolvimento religioso poderia trazer aos indivíduos no tratamento auxiliar de patologias como: hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade e outras

 

Pesquisas têm demonstrado a associação dos efeitos negativos do stress sobre estado de saúde, provocando diversas doenças especialmente a cardiovascular.

 

Constatou-se que a capacidade de resposta a fatores estressores, assim como a adaptação aos mesmos, ou o amortecimento do estresse crônico está relacionada a características individuais da personalidade.

 

O envolvimento espiritual é um fator que atua no mecanismo de defesa contra o stress crônico, auxilia na prevenção e combate de inúmeras doenças e no aumento da expectativa de vida.

Embora existam muitos estudos indicando a importância da religiosidade sobre a saúde humana, são poucos os experimentos que envolvem estudos das funções neuro-hormonais durante a oração.

A meditação tem sido usada na prática médica já há algum tempo, para reduzir a ansiedade. Estudos realizados nessa área mostram que indivíduos em meditação frequente mostram níveis de pressão arterial, de cortisol e de frequência cardíaca diminuídos.

 

A recitação do terço é importante na estabilização do sistema nervoso autônomo, conforme pesquisa desenvolvida por Bernardi e outros (2001). A respiração torna-se lenta e regular e havia diversos efeitos reguladores do sistema cardiovascular.

 

MEYER já havia proposto há mais de um século que a frequência respiratória de seis por minuto (um ciclo a cada dez segundos) é responsável pelo sincronismo do sistema autônomo com efeitos favoráveis à função respiratória e cardiovascular.

 

O terço é a repetição de 50 ave-marias. Cada ciclo de ave-maria tem exatamente 10 segundos (isto é, os mesmos 10 segundos descritos por MEIER). Assim, demonstra-se que o terço nos seus aspectos religiosos, deve ser considerado como um fator terapêutico na prevenção da saúde dos indivíduos.

Um grande número de estudos têm sido feitos e demonstrado que existe uma relação entre o estado mental espiritual e o sistema imune.

 

Outros estudos correlacionam o câncer com o stress psicossocial

 

Uma pesquisa realizada por PRIGERSON selecionou 150 homens viúvos. Aqueles que tinham um nível alto de luto, tinham uma grande possibilidade de desenvolver câncer entre o sexto e o 15o mês de viuvez.

 

Outros estudos mostraram que o alto suporte social estava associado a altos níveis de imunidade, aumento da estabilidade de sistema cardiovascular e redução dos níveis de cortisol.

Emoções positivas como compaixão, perdão, amor fraternal podem exercer um efeito benéfico sobre o sistema imunológico, reduzindo e até erradicando grande número de doenças.

Com a experiência clínica é possível concluir que o engajamento religioso como forma de qualidade de vida tem grande valor, possibilitando comportamentos sadios, estabilidade emocional e como mecanismo anti-stress.

 

A Fé quando não usada para suspensão de tratamentos por conta do efeito mágico, é importante no tratamento das doenças já que deixa o paciente mais aderente a ele.

 

Sofrimento no fim da vida

 

Apesar do grande desenvolvimento tecnológico atual, muitas vezes o processo de morrer vem acompanhado da dor e do sofrimento.

 

Pacientes no estágio final da vida podem ter medo da dependência da dor, da degeneração, da incerteza, da solidão e do isolamento, da separação dos entes queridos e de serem abandonados pelos profissionais que cuidam deles. Vivem o processo de luto da perda de si e das pessoas próximas (KÓVACS, 1999).

 

Alguns deles têm um temor em relação a algumas questões espirituais, como: não ser perdoado por Deus, não saber o que vai ocorrer após a morte e não ter encontrado sentido na sua vida.

Situações de muito sofrimento e a proximidade da morte levam a mudanças significativas na vida, que podem manifestar-se também nas questões espirituais.

 

SAUNDERS (1993) afirma que o que torna o sofrimento intolerável é ele não ser cuidado.

GENARO(2003) aponta que é nos momentos de dor e sofrimento que pode haver uma busca maior pela transcendência, o que ajuda a enfrentar estas situações. Ele indica algumas pesquisas que mostram a correlação entre saúde mental e busca espiritual especificamente quando existe um processo interior do indivíduo, a partir das suas experiências vividas.

 

BREIBART (2003) citando FRANKL afirma que o sofrimento pode ser um trampolim para a ressignificação da vida.

 

Quanto maior é o grau de paz e compreensão do que está acontecendo, melhor é a tolerância à dor, a capacidade de enfrentamento, resultando numa melhor qualidade de vida.

 

A pessoa deve caminhar dentro de suas próprias descobertas, sem ser induzida ou forçada, somente estimulada.

 

Espiritualidade e Cuidados Paliativos

 

A OMS (1990/2002) define cuidados paliativos como: “cuidados totais de pacientes cuja doença não responde mais ao tratamento curativo. Controle da dor e de outros sintomas e problemas de ordem psicológica, social e espiritual são prioritários. O objetivo dos cuidados paliativos é proporcionar a melhor qualidade de vida para os pacientes e familiares”.

 

A Declaração dos Direitos do Paciente (Chile, 2005) confirma o direito à assistência religiosa, afirmando que o paciente tem direito de receber ou recusar o conforto espiritual e moral, incluindo a ajuda de um ministro de sua opção religiosa.

 

Pesquisa feita pela American Pain Society mostrou que a oração era o segundo método mais usado no controle da dor, após as medicações orais e era o método não-ligado a drogas mais comum para tratar deste sintoma.

 

A espiritualidade está associada a menor depressão, menos risco de complicações somáticas, de suicídio e a menos uso de serviços hospitalares, inclusive a uma menor tendência de fumar.

 

As crenças religiosas em situações terminais podem auxiliar os pacientes a buscar o sentido ligado ao sofrimento próprio da doença, o que pode facilitar a aceitação da situação. (KOENIG 2001).

 

A assistência espiritual faz parte integral dos cuidados paliativos e é feita pelo atendente espiritual.

BREIBART(2003) mostra que 80% dos pacientes terminais querem conversar com seu médico sobre temas espirituais. Essa necessidade está ligada à dignidade no processo de morrer, à busca da existência plena e não apenas da sobrevivência.

 

A questão do sentido é importante diante do adoecimento e da proximidade da morte.

O contato com a ideia de morte e finitude é o espaço privilegiado para lidar com o sentido da vida e com a tentativa de compreender o que ocorre após a morte. (PARKES 1999).

 

Nesse momento de transição para a morte, as pessoas lidam com o medo do desconhecido com o sentimento de aniquilação e alienação, com a perda de identidade e diminuição de consciência.

BREIBART 2003 – destaca as necessidades dos pacientes em fim de vida:

 

1) Ser considerado como pessoa, participando de todas as decisões quanto ao tratamento

2) Revisão de vida

3) Busca de sentido

4) Necessidade de livrar-se da culpa

5) Necessidade de reconciliar-se

6) Necessidade de descobrir algo além de sua própria existência

7) Necessidade de ser amado, apesar de sua aparência

8) Necessidade de uma nova relação com o tempo (projetos a curto prazo). Não se tem todo o tempo disponível

9) Necessidade de uma continuidade, deixar marcas de nossa existência para pessoas significativas ou para a humanidade, envolvendo valores como fraternidade, justiça, respeito. Essa continuidade pode ser: descendentes, empresa, obra, mensagem, palavra.

 

PESSINI (2006) – fala sobre elaborar um “diagnóstico espiritual” desenvolvendo a habilidade da escuta, para perceber como o doente entende, interpreta e vive a sua experiência de estar doente, como se relaciona em seu contexto espiritual (fé em Deus, outra crença). Não repreender, censurar ou ligar a doença à ideia de castigo.

 

Para o paciente não religioso é preciso usar outros sentidos de espiritualidade, como a arte, a música, para dar um suporte durante a doença e auxiliando o encontro de um sentido para a vida nesse momento.

 

Para ANCONA LOPEZ (1999) é importante considerar a experiência religiosa e espiritual do doente, deixando que ele expresse os seus valores e expectativas. Há uma estreita relação entre religiosidade e saúde mental e por isso é fundamental buscar o que é pessoal e significativo na vida de cada um e seu sentido de pertença a uma dada comunidade espiritual ou religiosa.

 

O sentido de pertencer a um grupo favorece a troca de experiências, o sentimento de não estar sozinho nessa situação, podendo ajudar e ser ajudado e perceber que há um objetivo comum. Isso favorece falar abertamente sobre a morte e a transcendência num processo de construção individual e do grupo como um todo.

 

VITOR FRANKL, em seu livro PSICOTERAPIA E SENTIDO DA VIDA, mostra os fundamentos para essa terapia que inclui a transcendência no trabalho psicoterápico, ao buscar o sentido nas atividades que fazem parte da vida. As situações existenciais podem não mudar, mas a forma de encará-las sim.

JUNG também se refere à função transcendente como uma ampliação da consciência. Há uma parceria e uma completaridade entre a psicologia e a espiritualidade. É preciso estar atento às manifestações do sagrado nos relatos de sonhos e associações.

 

KUBER_ROSS também discute a importância do desenvolvimento espiritual, integrando aspectos psicológicos e espirituais no acompanhamento das pessoas à morte.

 

NOTA: Esse texto está baseado em diversos artigos que fazem parte do livro que teve como organizadores:

Pessini Léo e De Barchifontaine, Chistian de P.

Buscar Sentido e Plenitude de Vida

São Paulo: Paulinas e Centro Universitário São Camilo, 2008

 

Bibliografia

 

• Anandarajah G. Hight E. – Spirituality and Medical Practice: using the hope questions  as a pratical tool for spiritual assessment. Am Fam Physician 200; 63 (1)

(acessado em 8 de jan 2007). Disponível em URL: WWW.aafp.org/afp/20010101/81.html

 

• Ancona-Lopez M. – Religião e Psicologia Clínica : quatro atitudes básicas in Massimi M, Manfoudh, organizadores. Diante do Mistério: Psicologia e Senso Religioso. São Paulo: Loyola, 1999, p. 77-90

 

• Bernardi L. Sleight P., Bandinellig, Cencettis. Fatto Rivil, et al. – Effect or Rosary Prayer and Yoga Mantras on Autonomic Cardiovascular RHYTHMS: Comparative study. Br Med J. 2001; 323:1446 -49

 

• Boff L. – Espiritualidade : Um caminho de transformação. R. de J. sextante; 2001

 

• ___________ Ethos Mundial: um consenso mínimo entre os humanos. Brasília : Almaviva, 2000

 

• Breit Bart W. Espiritualidade e sentido nos cuidados paliativos. O mundo da saúde. 2003; 27 (1) :45-57

 

• _______________Deus e a Ciência: você pode acreditar nos dois? Revista Essencial 2005. Ago-Set : 13-15.

 

• Fowler J.W.- Estagiários da Fé: a psicologia do desenvolvimento humano. São Leopoldo: SINODAL, 1992

 

• FRANKL V. – Psicoterapia e Sentido da Vida. São Paulo: quadrante; 1973

 

• Gastaud MB, Souza LDM, Braga L., HORTA CL, Oliveira FM, SOUZA PLR ET AL. – Bem-estar e transtornos menores em estudantes de psicologia. Rev. Psiquiatria RS 2006; 28 (1) :12 -18

 

• Genaro Jr. F. – Considerações sobre religião e Saúde Mental : uma compreensão psicodinâmica. O mundo da saúde 2003; 27 (3) : 439-45

 

• Hardiwig J. – Questões Espirituais no fim da vida: um convite à discussão. O Mundo da Saúde 2000 Julho –ago; 23 (4) : 321 -324

 

• Koenig HG. The Healing Power of Faith. London : Simon & Schuster;2001

 

• Kovacs MJ. – Pacientes em Estágio avançado de doença, a dor da perda e da morte. In Carvalho MMJ, organizadores. Dor: um estudo multidisciplinar. São Paulo: SUMMUS, 1999,p.313-37.

 

• Kubler – Ross E. – Morte: estágio final da evolução, Rio de Janeiro: Record, 1975.

 

• Marques LF. – A saúde e o bem-estar espiritual em adultos porto-alegrenses. Psicologia Ciência e Profissão 2003; 23 (2) 56-65

 

• Parkes CM. – The Spirit of GOD in Stein S. Editor. Beyond Belief. London: Karnaf Books, 1999.

 

• Pessini, L. – Cuidados Paliativos e espiritualidade em laboratório de estudos sobre a morte do Instituto de psicologia da USP – Centro MIG. SC São Paulo

 

• Pessini L. Bertanchini L. – O que entender por cuidados paliativos. São Paulo: São Camillo – Loyola; 2006

 

• Saunders C. – Some Challenges that face us. Palliative medicine 1993, SUPPL, 77-83.

 

• Salomon RC. – Espiritualidade para céticos: paixão, verdade cósmica e racionalidade no século XXI. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2003.

 

 

Como conciliar a vida profissional com a vida pessoal

Aquilo que existe e sempre haverá de existir é a vida pessoal. Ninguém nasce profissional. A profissão é algo que se adquire e se desenvolve, enquanto que a vida pessoal está presente a qualquer momento, como que num jogo de figura-fundo. Numa hora é a figura que se realça, noutra é o fundo que se destaca. Precisamos considerar que essas esferas, a pessoal e a profissional, muitas vezes entram em atrito, demandam decisões difíceis de ser tomadas. Há conflitos e fortes tensões dentro de cada uma delas e entre elas. Desde a escolha da profissão, por exemplo, o jovem terá que ceder às exigências de uma vida mais rigorosa e disciplinada para conseguir sair do "bem bom" da adolescência. A questão do tempo.

 

Começo por abordar a questão do tempo por ser uma das queixas mais comuns da existência de sérios conflitos entre as duas esferas, pessoal e profissional de vida: se atendo a uma, deixo de atender à outra! Não só falta tempo para conciliar a ambas, como falta tempo para dar conta e imprimir alta qualidade em cada uma delas! Vejamos como cuidar melhor disso. Até o final da adolescência o jovem se conserva ainda muito centrado na busca pela satisfação quase que exclusiva de seus prazeres e necessidades imediatas. Daí ser notadamente muito impulsivo e não conseguir lidar direito com o relógio, com as horas regradas e socialmente construídas para todos compartilharem. Esse é o sistema de regulação de tempo, que molda as relações de trabalho. Tem hora para entrar, para sair e tempo para trabalhar. Tudo muito bem articulado. Na infância e puberdade os pais (idealmente) é que controlam esse fluxo de duração, permanência, início, fim, entrada e saída em relação às mais diferentes atividades; na escola, os bedéis e as campainhas chamam os alunos para dentro e para fora das salas de aula. Na faculdade os alunos é que precisam aprender a se autorregular. Quem diz que isso é fácil?

 

Haja pai e mãe desesperados, assumindo ainda a função de despertador em casa, brigando para filho marmanjo não perder hora e fazer o favor de sair para estudar! Se deixar por conta dos jovens – que é o que tem que ser feito – o mais comum é que durmam por mais tempo, percam aulas, adormeçam na sala, esqueçam dos compromissos, porque ainda jovens, estão em plena reforma da sua arquitetura mental e ainda não correspondem plenamente às regras do mundo adulto. Na idade adulta se pressupõe a total compreensão, aceitação e até mesmo uma boa dose de obediência ao tempo social, ao tempo do relógio de 24 horas. Trata-se da aprendizagem da pontualidade, entendendo-se que pontualidade é um mix de respeito ao compromisso assumido com uma tarefa e com outra pessoa, além de consigo próprio. Tem tudo a ver com manter o foco, a palavra empenhada, enfim, tornar-se confiável.

 

Só para começar, então, na obrigação de cumprir com os horários e tarefas da faculdade já se instala um dos primeiros conflitos que torna a formação profissional uma "coisa chata": tem que estar lá para assistir aula e participar das discussões em grupo. Adquirir uma formação básica acadêmica não tem sido um processo muito empolgante para a maioria dos jovens, porque requer a presença do aluno em sala, além de ficar ouvindo coisas (gastando seu tempo) com assuntos que não são de seu interesse no momento e que, talvez, nunca venham a ser. Isso para nem entrarmos em questões ainda mais controversas como a qualificação do professor, a motivação do aluno e se a escolha.