Abraço afetuoso em corpo sofrido
- saúde integral para idosos

Autocuidados para uma velhice saudável

Esqueceu de respirar e morreu

Massagem, ainda que tardia

Morrer curado

Movimento, ainda que tardio

Plasticidade cerebral

Velhos e deprimidos

Como e por que envelhecemos

Abraço afetuoso em corpo sofrido – saúde integral para idosos

Tânia raramente sai de casa. Desde que teve um surto de esclerose múltipla, vários anos atrás, move-se com muita dificuldade. Em casa ainda se arrisca a usar um andador ou a apoiar-se nas paredes para andar. Quando sai, vai de cadeira de rodas. Mas aí ela depende de alguém que a leve para onde quer ou precisa ir. Mesmo assim, ela sai, de vez em quando, para ir à terapia física ou ao médico e ao cinema. Vez ou outra, viaja para ver o filho e o netinho. Mas sempre na cadeira de rodas, que vai junto. Quando tenta alguns passos, Tânia já não consegue perceber a posição do seu corpo. Só olhando para sua sombra projetada na parede ou no espelho é que ela percebe como fica encurvada ao andar. Arrasta as pernas com fadiga e lentidão: faltam-lhe condução nervosa e equilíbrio.

 

Como reverter esta situação? Como fazer com que Tânia consiga ver-se novamente caminhando com leveza e rapidez, imaginar-se fora de uma cadeira de rodas? Poderíamos tentar reconstruir o histórico do surto, para ver se conseguimos chegar às emoções que no passado lhe turbinaram o corpo, sobrecarregando seus nervos ao ponto de provocar-lhe curtos-circuitos danosos. É um caminho longo e difícil, a abranger toda a história de vida de Tânia; uma história que ela não gosta muito de fazer aflorar. Entendendo e desbloqueando a dinâmica emocional da situação que desencadeou o surto, poderá ela abrir-se para uma nova expressão de seu corpo?

Quem sabe, poderíamos convencê-la de que ela pode mudar seus padrões de andar ou de respirar, que adquiriu após o surto, imaginando-se com a motilidade de antes e procurando movimentar-se para criar novas conexões nervosas, substituindo aos poucos as que foram bloqueadas. Será que ela se disporia a respirar melhor, se lhe fizéssemos perceber o quão superficial e contida é sua respiração? Respirando melhor, seu corpo certamente se beneficiaria com mais oxigênio; mais oxigênio, mais movimento, melhor atividade cerebral, melhor condução nervosa. Uma coisa é saber, outra é fazer.

 

A mente de Tânia pode compreender tudo isso, mas seu corpo não. Ele não se dispõe a mudar, porque só faz o que seu cérebro lhe permite. O cérebro, por sua vez, consegue ajustar-se a novas situações, pois tem a plasticidade necessária, mas assim procede apenas se o corpo lhe enviar novos impulsos. O corpo nega-se a fazer mudanças e a mente, mesmo compreendendo que pode e deve mudar, não consegue que isso ocorra e o cérebro aguarda que o corpo lhe envie novos sinais para mudar seus controles. Desse jeito, o corpo de Tânia continua achando que não consegue andar direito e que, portanto, precisa de uma cadeira de rodas para se locomover.

 

É um círculo vicioso: o quê pode quebrá-lo? O corpo tem que conhecer por si mesmo que uma outra maneira de ser é possível. Isto deve ser percebido nas entranhas, entre as vísceras e a pele. Uma dor que se desfaz, um frio que se torna quente ou um quente que se torna frio, um espaço articular que fica mais livre, sensações de energia que correm para cá e para lá, onde antes a mente nada registrava. Até novas dores, antes não percebidas, podem ser a novidade de uma vida nova. Sobretudo, o prazer da pele: aquela sensação de relax morno que fica nela depois de um suspiro profundo ou durante o toque de mão, macio ou enérgico, de uma pessoa amiga – um parente, um amigo, um cuidador, um terapeuta.

 

O abraço apertado que prende a sua respiração, mas que depois relaxa a presa e permite o desafogo – abraço afetuoso em corpo sofrido. É o começo para o corpo se libertar da escravidão da mente, quando ela só vê o que se enxerga, e do cérebro, que tudo controla para que nada mude.

 

 

Saúde integral para os idosos

Tânia pode ter qualquer idade, mas o que vale para ela vale para todo idoso dependente ou simplesmente todo idoso que percebe ter perdido mobilidade. É fatal a perda de mobilidade na velhice? Perda de mobilidade é restrição de movimento e, portanto, restrição de liberdade. O que fazer? O corpo já não se percebe capaz de se agachar, de pular, de fazer força, de correr, de se dobrar para trás, de olhar para trás, de enxergar sem óculos... Cada corpo sabe o que pode e o que não consegue fazer, do que precisa ou não precisa para ser feliz ou simplesmente para não viver com queixas estereotipadas e corriqueiras.

 

O abraço carinhoso, o toque carinhoso, a massagem em sintonia com o corpo do idoso podem fazer “ressuscitar“ qualquer pessoa idosa de sua vida porventura letárgica, sem vibração, sem brilho, sem energia. Meia “ressurreição” serve? Saúde só pode ser integral, ou seja, abranger o todo do ser. Não há meia saúde ou meia doença – tanto uma como a outra pertencem ao ser como um todo, porque ou bem a gente consegue um equilíbrio vital ou bem vive de forma desequilibrada, o que prenuncia a falência orgânica e psíquica. Saúde só pode ser integral, ou seja, na relação do todo do ser com o todo do universo. Ninguém pode ser saudável sozinho, no meio de uma epidemia social ou mortandade ou deterioração ambiental, sem alguma intimidade com sua origem cósmica.

 

As pessoas idosas sabem – talvez nem todas – o que as pesquisas já há muitos anos evidenciaram. Saúde não diz respeito apenas à medicina e ao médico (quiçá quando nossa sociedade vai se dar conta disso!); ela realiza-se ao redor de toda a vida de relações de cada um, desde a concepção e o nascimento, com a família, no mundo do trabalho e do lazer, na vida política e social e na exploração do meio ambiente universal. Saúde é uma qualidade inerente à vida de cada um e uma capacidade intrínseca de reequilibrar o que se desequilibrou nos embates da vida. Nós somos, radicalmente, basicamente, os artesãos de nossa saúde. Ela não vem de fora pelas mãos do especialista em saúde nem pelo efeito do remédio milagroso. O milagre, se é que existe, somos nós mesmos – é uma qualidade da vida que nos é dada, mesmo quando esta vida vem com “defeitos”.

 

Saúde está na atividade criadora de bens econômicos e de relações amistosas e amorosas. Saúde gera-se na fé em si mesmos e na fé na amizade e na convivência amigável entre os humanos e com as demais espécies viventes. Saúde brota do convívio equilibrado com o meio em que vivemos, desde a alimentação até o metabolismo dos dejetos, na terra e no universo. Saúde resplandece nas artes criadoras do espaço simbólico dos seres humanos. Saúde advém do equilíbrio entre o sonho, a utopia, e a realidade, entre a visão lançada para o futuro idealizado e o olhar mais chegado do caminho acordado do dia a dia.

 

O que mais você quer além da saúde? Felicidade? Há diferença entre elas? Talvez sim. É certo, porém, que podemos sentir-nos em boa saúde apesar de estarmos doentes, pois esta, a doença, nada mais é do que um alerta de nosso organismo para tomar consciência de que algo afeta nosso equilíbrio e precisamos tomar providências. Mudarmos algo em nossa vida? Frequentemente alguma mudança já surte o efeito desejado, mas, às vezes, nos é requerido um esforço de mudança supremo, que pode ser a própria aceitação do fim de nossa existência. A saúde desafia-nos a morrer. Descobriremos, então, que a morte é saudável para nosso ser?

 

 O título deste artigo é o mesmo de um livro que escrevi e foi editado pela Editora SENAC-SP em 2002 e que, por sua vez, é uma síntese da dissertação de mestrado apresentada por mim na PUC-SP.


Se você se interessar por ler mais sobre o conceito de saúde integral aqui exposto procure o meu livro.

 

 

Autocuidados para uma velhice saudável

Artigo: por que autocuidados na velhice?

 

Mestre em Gerontologia, Psicólogo, Self-Healing Massage Practitioner/Educator – Level Two, autor do livro “Abraço afetuoso em corpo sofrido – Saúde integral para idosos”, editado por SENAC-SP.
A medicina alopática, tendência dominante de nossa cultura médica, acostumou-nos a pensar que
o ser humano não está na origem de suas patologias; ele adoece porque é agredido por corpos estranhos, por agentes externos nocivos e maléficos: vírus e bactérias, o clima – muito frio, muito quente ou muito úmido –, a poluição, o tabaco, o álcool, as drogas, as gorduras, os doces, o chocolate, o ritmo de trabalho, o estresse da vida moderna, a família, a sociedade ou até a
própria medicina (iatrogenias).

 

Convencidos disso ao longo de nossa vida, procuramos enfrentar os males que nos afligem, na maioria das vezes ingerindo fármacos que prometem resolver todos os nossos problemas, salvo, evidentemente, os que eles próprios possam criar. Cada novo fármaco que tomamos tem seus “efeitos colaterais”, que precisam ser combatidos com outros fármacos. Desta forma, vamos nos tornando fármaco-dependentes: um fármaco “puxa” o outro e assim sucessivamente até nos encontrarmos na situação de ter que engolir uma dúzia deles todos os dias (e os problemas de lidar com muitas pílulas semelhantes em horários diferentes ao longo do dia?). Está criada uma situação insolúvel, pois nenhum médico consegue prever todas as conseqüências das interações medicamentosas, digamos, de mais de três fármacos ingeridos simultaneamente. Mas ninguém parece abalar-se com isso!

 

A dependência dos fármacos

 

Essa visão de saúde cria nas pessoas uma ansiedade por soluções que vêm de fora e que num passe de mágica resolvam todos os problemas, gerando uma incapacidade de suportar, os sofrimentos, por menores que sejam, em busca de soluções mais duradouras para os desequilíbrios de saúde. Querem um alívio imediato, mesmo que o problema volte agravado logo em seguida. Cria-se um círculo vicioso na relação entre o médico e o paciente: este último é convencido pelo médico da necessidade de tomar fármacos para solucionar seus problemas de saúde e, por sua vez, de tão convencido da necessidade disso, acaba exigindo uma receita do médico (se o médico não lhe indicar um remédio, cria-se freqüentemente um vazio terapêutico que gera ansiedade em ambos).

 

Quando as pessoas não costumam desconfiar que elas podem agir em prol de sua saúde (muitas vezes até temem que alguém possa sugerir que façam algo), parece não haver muito sentido em autocuidar-se no dia-a-dia, a não ser tomar religiosamente remédios. A esse respeito, é comum as pessoas acharem os remédios muito caros, de forma que freqüentemente clamam pela doação do estado (ou por direitos do cidadão). Os políticos, “ouvindo o clamor do povo”, criam programas de distribuição gratuita de remédios. Dificilmente alguém se pergunta sobre quem paga por todos esses remédios, que, muitas vezes, além de não remediar, pioram a situação de enfermidade e de sofrimento. Ninguém, porém, se preocupa em criar programas de redução de uso de remédios.

 

Os laboratórios farmacêuticos agradecem e procuram desenvolver cada vez mais remédios “indispensáveis”. No fim, não há dinheiro que cubra o orçamento para as políticas de saúde e, assim, o jeito é apelar para os deuses. Os idosos fragilizados são culpados pelo “estouro do orçamento da saúde” Esta situação atinge mais freqüentemente pessoas idosas, pois elas viveram o suficiente para tornar-se fármaco-dependentes, devido a enfermidades ditas degenerativas, isto é, que geram um processo de adoecimento lento e progressivo durante um longo tempo.

 

As políticas de saúde não se preocupam com a prevenção das doenças degenerativas e depois as autoridades sanitárias e as empresas de saúde queixam-se porque os idosos absorvem muitos recursos por causa de tratamentos caros e prolongados. Há alguma lógica nisso? Parece que não, mas é isso que acontece o tempo todo. Freqüentemente, lemos artigos e ouvimos autoridades sanitárias dizendo que quanto mais idosa a pessoa mais elevado fica o volume de dinheiro de que ela necessita para o tratamento de suas enfermidades. Assim, cria-se o preconceito de que todo idoso é um enfermo que custa caro. Este preconceito deve ser repudiado por todos que, sendo ou não idosos, perceberam que a visão de saúde pode ser diferente da que está sendo mantida pela medicina alopática e que, portanto, as políticas de saúde também podem ser diferentes (e quiçá também mais baratas).

 

Saúde como capacidade inata de equilíbrio do organismo humano

 

Em meu livro sobre saúde integral para idosos abordo com mais detalhes essa visão de saúde que se desenvolveu, em tempos recentes, a partir da década de sessenta, no século passado, na esteira dos movimentos de contracultura, que fizeram renascer um sem-número de terapias ditas alternativas, mostrando para o mundo que não há uma única medicina (a alopática) e que também não há uma única visão de saber médico (o ocidental, que se arvora em ser o único “científico” e, portanto, o único aceitável). Considerando nosso organismo não como uma máquina mecânica, mas como um sistema vivo complexo, proponho, junto com muitos outros autores, que “saúde é um movimento de auto-organização que permite às pessoas se manterem equilibradas, podendo transcender a si mesmas para alcançar novos estágios de desenvolvimento” (o.c., p.73). Nesse contexto conceitual, as enfermidades são apenas sintomas que denunciam um desequilíbrio, solicitando de nosso organismo uma reação de recomposição de um equilíbrio. Este poderá não ser necessariamente o equilíbrio anterior à enfermidade, mas será um novo equilíbrio (podendo ser até superior), o qual permitirá ao ser humano continuar a sua caminhada em direção a seu destino.

 

Está claro que a visão de saúde que vê o organismo humano como um sistema complexo, relacionado com outros sistemas igualmente complexos, é também uma visão holística, pois o organismo humano é considerado como um todo único –corpo, mente, psique, espírito, em relação como o mundo– sem possibilidade de fragmentações que reduzam a saúde meramente a algo ora físico ou mental, ora psíquico ou espiritual, ora social.

 

Por que autocuidados de saúde?

 

Se você aceita a ideia de que o organismo humano é em si saudável, por possuir um poder próprio de reequilíbrio quando adoece, você pode compreender por que vale a pena ter autocuidados de saúde. Em primeiro lugar, ao se autocuidar, você lança mão de um recurso a mais, além de todos os recursos externos a você que estão a seu alcance. Em segundo lugar, autocuidados de saúde são recursos baratos (mesmo que você tenha que gastar algo para aprender a se autocuidar), pois requerem apenas gastos de seu tempo e de sua atividade. Em terceiro lugar, autocuidados são meios não-invasivos (ao contrário de fármacos e cirurgias), que não oferecem perigo de efeitos colaterais perniciosos ou riscos de algo não dar certo. Em quarto lugar, eles dão alívio imediato a seu sofrimento, pois atuam na redução da ansiedade e da dor ou da restrição de movimento. Além disso, eles costumam ter conseqüências fisicamente prazerosas, por diminuírem as tensões e produzir no organismo efeitos de bem-estar fisiopsíquico. Por fim, em quinto lugar, autocuidados mantidos durante algum tempo geram benefícios que perduram no tempo e que permitem recuperar funções que já haviam sido perdidas, sem prejudicar outras funções (coisa nem sempre possível através de fármacos).

 

Faz sentido autocuidar-se na velhice?

 

A medicina alopática define uma série de distúrbios, geralmente de tipo degenerativo, como sendo associados à velhice. Embora isto apenas signifique

que esses distúrbios aparecem, do ponto de vista estatístico, principalmente na velhice, muitos médicos e, de conseqüência, muitos de seus pacientes entendem que a velhice é a causa desses distúrbios. Se assim fosse, ao ficarmos velhos todos nós deveríamos sofrer de todos esses distúrbios. Dessa forma, alastrou-se a crença que velhice rima com doença, com incapacidade, com restrição de movimento, com dificuldade de recuperação física, com falta de plasticidade do organismo, com fraqueza física e mental, enfim, com a antecâmara da morte, se não com ela própria. Essa mentalidade parece absurda à primeira vista, mas é ela que orienta um grande número de pessoas a descuidar das dificuldades físicas e mentais dos idosos, por pensar que são próprias da idade e que não há muito a fazer. Quem se preocupa com a flexibilidade e a mobilidade física do idoso?          Para quê? É normal um velho curvo arrastando os pés? É normal porque parou de se autocuidar, de se movimentar adequadamente e foi perdendo capacidade física e de movimento, aos poucos, até achar que não haveria mais nada a fazer.

 

Em artigo anterior sobre Envelhecimento, plasticidade do cérebro e saúde, publicado neste mesmo Portal do Envelhecimento, eu mostrava como a psico- neurociência reconheceu que o organismo mantém sua capacidade plástica, de adaptação e de recuperação, até idade avançada. Portanto, sempre é tempo para rejuvenescer, isto é, para voltar a recuperar funções, mobilidade e motilidade perdidas por falta de uso adequado do corpo ou como consequência de algum problema de saúde. Autocuidados são úteis em qualquer idade, inclusive e sobretudo na velhice, quando se chega a ela com um corpo descuidado de há muito tempo.

 

 

 

Self-Healing educa para o autocuidado

 

Entre as diversas formas de autocuidados, quero destacar as que são preconizadas pelo método terapêutico Self-Healing (auto cura, em inglês) de Meir Schneider. Este método apropriou-se das melhores práticas corporais de vários outros métodos e as unificou de forma eficaz e simples. Ele incentiva-nos a modificar os nossos padrões de comportamento, que se fixaram ao longo do tempo em nosso corpo, gerando os distúrbios que nos afligem ou impedindo que o nosso corpo desfrute de maior bem-estar. Devemos modificar principalmente nossos padrões de respiração e de movimento, pois a primeira pode melhorar a oxigenação do nosso organismo e o segundo sua nutrição pela via sanguínea, liberando a energia interna de nosso organismo para superarmos desequilíbrios e exercermos as atividades de nossa vida com mais força e criatividade. Modificando esses padrões, modificaremos nosso cérebro, ativando-o cada vez mais para cumprir com suas funções de coordenação geral do organismo.

 

Tudo que devemos aprender a fazer são exercícios simples de respiração e de movimentação (alongamentos, caminhadas), num processo de escuta de nosso corpo (consciência/percepção corporal) e de redescoberta de cada parte deste corpo, que, com o tempo, costuma virar um monobloco. É gostoso descobrir na velhice que o corpo que nos parecia um estorvo pode ser o companheiro de novas descobertas, de novos desejos e de novas satisfações. (para ulteriores informações sobre o método Self-Healing: www.self-healing.com.br)

 

Giulio Vicini

giuv40@gmail.com

 

 

Esqueceu de respirar e morreu

Minha mulher contou-me um dia que, quando pequena, seu João, um vizinho de casa, havia sido encontado morto logo de manhã em sua própria cama. Seu João era muito conhecido de todas as crianças, pois era um contador de histórias, daquelas que deixam as crianças com a respiração presa, histórias assustadoras. Pequenina, minha mulher perguntou a uma tia como seu João havia morrido e ela respondeu-lhe que o velho havia se esquecido de respirar. Esta resposta deixou a menina muito angustiada, pois quando se deitava temia que, ao dormir, pudesse se esquecer de respirar e morrer – como é fácil perturbar a vida de uma criança, até mesmo com brincadeiras que ela não tem condições de assimilar! Mas, o que parece ser fruto de uma brincadeira de mau gosto não deixa de ser, freqüentemente, uma verdade: dia após dia, esquecemo-nos de respirar e acabamos “morrendo” por falta de oxigênio. E não precisa ser velho para isso, pois há muitos jovens nesta condição. Procurando na internet, garimpei a noticia de que a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto havia pesquisado efeitos do barulho em ambientes de trabalho, chegando à conclusão, entre outras, de que o barulho, a longo prazo, afeta a capacidade respiratória das pessoas (sem que elas o percebam). Quantos jovens não estão nesta situação, no trabalho, em suas casas ou nos bailes! Recentemente escrevi um artigo sobre depressão para este portal, no qual trazia a opinião de Alexander Lowen, que cinqüenta por cento do trabalho terapêutico para vencer a depressão consiste no trabalho corporal para fazer os deprimidos respirarem, a fim de restituir-lhes a vitalidade, e fazê-los enraizar-se no chão, quando estiverem “voando” atrás de ilusões. Quantas pessoas não precisam respirar para se sentirem bem! Há outras pessoas que precisam descobrir o quão precariamente estão respirando. Uma condição prejudicial à saúde, que deprime a respiração e afeta muitas pessoas em todas as idades, é “o estresse que não pára”, ou distresse. Distresse, uma palavra ofegante

 

A literatura médica está farta de artigos sobre estresse e distresse (distinção criada por Harold G. Wolf, 1953), pois este é o mal do século, um mal que se pode prevenir e combater sem remédios, mas que continua assolando nossas vidas, por conta da (des)organização social. Se nós não engendramos este mundo que nos faz adoecer por nossa livre vontade, nós também acabamos agüentando-o, ao não promovermos as necessárias mudanças em nossos estilos pessoais e sociais de viver. O estresse (físico-emocional) é o conjunto de modificações que se operam em nosso organismo, como reação a estímulos ambientais não usuais (um ataque físico, um desafio importante, uma forte emoção tanto agradável como aversiva, por exemplo). O distresse é a manutenção deste conjunto de modificações em nosso corpo por um período de tempo superior ao que ele pode agüentar sem que ele se desequilibre. Cada um de nós tem uma capacidade própria de lidar com situações estressantes e de agüentá-las e, portanto, um limite pessoal além do qual nosso organismo se deteriora. Cada um de nós também percebe os estímulos ambientais de forma diferente: alguns podem reagir em sua própria defesa apenas a partir de estímulos fortes de “ataque”; outros podem interpretar, até inconscientemente, como “sinais de perigo” qualquer percepção de ansiedade. Costuma-se dizer que o estresse é um padrão de comportamento necessário para a sobrevivência (para defender-se dos ataques hostis) e que se construiu ao longo da evolução até a espécie humana. É o mecanismo do “lutar ou fugir” e que atua como um sistema de alerta e defesa de si próprio. Faz parte deste padrão de defesa, além da dilatação das pupilas (para enxergar mais), da concentração do sangue nos músculos mais poderosos (para fugir ou lutar) e da aceleração dos batimentos cardíacos (para aumentar o débito sanguíneo), a modificação do ritmo da respiração, de lento para rápido e de sua extensão, de profunda para superficial (para ficar de prontidão). O estresse prolongado (ou distresse) reforça, então, padrões de resposta não saudáveis, pois pereniza, entre outros modos de comportar-se, um tipo de respiração “ofegante”, uma respiração rápida e superficial. Respirar (bem) é preciso

 

Estressados ou não, o fato é que durante o dia não percebemos nossa respiração e não tomamos consciência de como respiramos. Quanto mais nos dedicamos com corpo e alma a alguma tarefa, tanto mais estamos sujeitos a sofrer de um padrão “minimalista” de respiração e até a parar de respirar, durante lapsos de tempo. Sabemos que o sangue em circulação em nosso corpo transporta o oxigênio que respiramos para todas e cada uma das células e que quanto menos oxigênio respiramos menos vitalidade possuímos. Schneider afirma que um padrão de respiração superficial contínua reduz a circulação do sangue no corpo, especialmente em sua periferia, provocando nas células, ao mesmo tempo, uma fome de oxigênio e uma alta toxicidade e ocasionando mãos e pés frios, fadiga e perda de concentração e de clareza mental. As pessoas de maior poder aquisitivo, tendo aprendido a importãncia de respirar bem, costumam freqüentar academias, para fazer exercícios aeróbicos, mas elas ainda não se deram conta de que não é suficiente respirar bem apenas durante algum período e mal durante a maior parte do dia. Nosso cérebro precisa entender que necesitamos de respirar plena e profundamente, não apenas durante alguns exercícios, mas também mesmo quando estamos em situações que não são ideais para a respiração. Respirar bem significa respirar através do nariz, tanto na inspiração como na expiração. Os pelos e o muco das narinas filtram, aquecem e umedecem o ar que entra no nariz, tornando-o mais limpo e respirável pelos pulmões. A boa respiração implica que se expandam bem os pulmões na inspiração, mas também que a expiração seja tão ou mais longa e eficaz que a inspiração. Para respirar bem precisamos expelir o ar pobre em oxigênio que permanece em nossos pulmões. Não basta tomarmos consciência de que respiramos mal e precisamos respirar melhor, embora este seja o primeiro passo imprescindível. É necessário “assumir o controle de nossa respiração”, o que é uma idéia revolucionária, para Meir Schneider. Isto se faz preparando o corpo para receber uma respiração profunda, através da percepção da respiração e por meio da massagem e da visualização, alongando e soltando a musculatura que envolve o tórax, para que ele possa expandir-se com facilidade, praticando exercícios para criar demanda por oxigênio em seu corpo . Os meandros da respiração

 

Por que, afinal, não respiramos bem? É tão simples respirar! O que dificulta nossa respiração? Desde pequenos, muitos episódios físico-emocionais (agradáveis, mas sobretudo desagradáveis) de nossa vida vêm criando tensões em nossos músculos. As tensões que chegam a se organizarem como padrões de respostas às nossas próprias emoções e aos eventos externos que nos atingem moldam nosso próprio organismo, criando zonas de trânsito respiratório livres e zonas de bloqueio. Assim, o ar deveria entrar facilmente pelo nariz, descer suavemente pelos brónquios até a caixa torácica, onde os pulmões deveriam se expandir e contrair livremente, num movimento que vai da garganta até o assoalho do abdômen. A onda inspiratória inicia-se dentro do ventre e se propaga para cima em direção à garganta e à boca. A onda expiratória faz o movimento contrário. Quando há áreas de tensão que bloqueiam a onda, os movimentos respiratórios tornam-se restritos e espásticos. O movimento repiratório deveria ser percebido como uma energia que escorre por todo o corpo, do topo da cabeça até os pés, tanto na parte de frente do corpo como em sua parte posterior. Mas a vida que levamos freqüentemente cria entraves para o ar e nossa respiração não se mantém em seu estado ideal, tornando-se uma respiração superficial, ofegante, imperceptível à nossa consciência corporal. Os bloqueios da respiração

 

Alexander Lowen orienta-nos entre os meandros dos bloqueios respiratórios. Ele observa que se o ventre estiver flácido e as nádegas apertadas há poucos movimentos abdominais nos movimentos respiratórios. A respiração torna-se torácica ou diafragmática como fruto de um anel de tensão em volta da cintura. Observa, também, que as tensões abdominais surgem para reprimir sensações sexuais , controlar as funções escretoras e diminuir a dor causada pelo choro persistente da criança que não consegue ser atendida pelos pais . As tensões diafragmáticas são originadas pelo medo e produzem uma elevação das costelas inferiores. Meir Schneider , por sua vez, observa que “a respiração superficial crônica inibe a expansão do tórax e do diafragma, contraindo os músculos e levando, por fim, ao estreitamento da cavidade torácica, ao arredondamento para frente dos ombros e à distorção da postura do pescoço e da região dorsal superior”. Lowen acrescenta que uma parede torácica rígida também reduzirá as sensações e os sentimentos associados com o coração (o amor não está livre), nesta parte do corpo, afetando a profundidade da respiração. As tensões nos ombros, que inibem os movimentos naturais de pegar e de estender, também afetam a respiração, impedindo o movimento descendente natural da expiração e evitando uma expiração profunda, a qual evocaria sensações na pélvis. A pessoa fica como suspensa num cabide, elevando o centro de gravidade de seu corpo. Sempre segundo Lowen, há também inibições, ainda mais relevantes, nos músculos da garganta e do pescoço, as quais se desenvolvem para inibir choro e gritos, e que reduzem a absorção de oxigênio –pela contração, diminuindo o nível energético do organismo. Freqüentemente estas tensões estendem-se para dentro da cabeça e da boca , fazendo parte de uma inibição do ato de sugar (respirando, sugamos o ar). Um outro anel de tensão, para Lowen, pressiona a base do crânio: espasticidade dos pequenos músculos occipitais e dureza, na frente, da musculatura que movimenta a mandíbula (a contração da mandíbula gera sua posição retraída – significando falta de auto-afirmação – ou proeminente – evidenciando uma mandíbula desafiadora, não condescendente). Como as tensões da mandíbula incluem os músculos internos pterigóides , que se inserem na base do crânio, este anel de tensão bloqueia o fluxo de sensações do corpo para a cabeça. Lowen acrescenta que há outros padrões de tensão muscular crônica que perturbam as ondas respiratórias e bloqueiam o livre fluxo das excitações no corpo, tais como, por exemplo, a espasticidade dos músculos longos das costas e das pernas e as áreas de colapso, ou seja, as áreas do corpo em que a rigidez muscular se quebrou por causa de estresse, de forma a se tornarem flácidas. Enquanto você decide o que fazer

 

Se você se convenceu de sua necessidade de respirar melhor, certamente quererá tomar algumas providências, como comprar o livro de Meir Schneider ou seu Cd (ou os dois), ou ainda escolher um terapeuta de Self-Healing para orientá-lo na empreitada de “assumir o controle de sua respiração”. Isto pode demorar algum tempo. Enquanto amadurece sua decisão, você já pode fazer algo por sua respiração, fazendo a prática corporal que lhe proponho a seguir. Deite-se confortavelmente em lugar silencioso, com uma almofada em baixo dos joelhos, para sentir suas pernas relaxadas (se sentir tensão no pescoço, talvez você prefira colocar uma pequena almofada também em baixo da cabeça). Procure fazer contato com a superfície na qual você se deitou com toda sua coluna, sem esforço, apenas imaginando que ela é feita de borracha e pode adaptar-se totalmente à superfície. Coloque suas mãos abertas sobre seu abdômen e sinta sua respiração abdominal durante três minutos. Em seguida, durante três minutos, coloque suas mãos abertas sobre seu peito e procure perceber sua respiração peitoral. Perceba ainda se você está sentindo sua coluna respirando, expandindo-se e contraindo-se ritmicamente. Agora inspire (enchendo abdômen e tórax) contando (devagar) até seis e expire (soltando o ar) contando até oito, durante os próximos três minutos. Se isso for difícil para você, comece inspirando até três e expirando até cinco. (com o treino, você poderá inspirar até 12 e expirar até 16 ou mais – é importante que você demore sempre um pouco mais para expirar do que para inspirar). Dobre agora os joelhos, apoiando os pés na superfície sobre a qual está deitado. Deite suas pernas dobradas para o lado direito, girando a cabeça para o lado esquerdo. Depois deite as pernas dobradas para o lado esquerdo, girando a cabeça para o lado direito. Faça isso por 20 vezes de forma lenta e ritmada. Ao deitar as pernas de um lado, você sentirá esticar um pouco a lateral de seu tronco do lado oposto. Procure sentir que seu torax se expande, ao respirar, na parte superior do peito, perto da articulação do ombro. Diga a seu cérebro, que você quer expandir seu tórax assim durante o dia inteiro (ou durante a noite), mesmo quando você não estiver prestando atenção em sua respiração. Se você fizer o movimento das pernas e da cabeça com os braços deitados para trás, a expansão de seu tórax será mais ampla. Faça isso, de manhã, ao acordar e à noite, antes de dormir, todos os dias. Somente os persistentes serão premiados com uma respiração mais profunda e uma vitalidade renovada. Giulio Vicini

 

Mestre em Gerontologia, Psicólogo, Self-Healing Massage Practitioner/Educator – Level Two

 

 

Massagem, ainda que tardia

Em artigo anterior aventava a hipótese de que poderíamos chegar com idade avançada à beira da morte com boa saúde e vir a morrer com muita tranquilidade. Ocorreu algo parecido com uma pessoa, na casa dos setenta e poucos anos, de que eu cuidei até o mês passado. Mulher ativa e independente, foi acometida de repente por uma doença neuromuscular que dificultou sua fala e, posteriormente, sua capacidade de deglutir, sendo afetada, portanto, em sua capacidade de falar e de alimentar-se normalmente. Esperava-se que a doença progredisse rapidamente tornando-a incapaz de movimentar braços e pernas, o que de fato ocorreu semana retrasada, cerca de um ano após a identificação do diagnóstico. Ela não tinha perspectiva médica de cura e me procurou para que lhe fizesse massagens.

 

Quando ela veio a mim, ela não sabia claramente o mal que a havia atingido, nem tinha clareza do que eu poderia fazer por ela. Eu sabia que poderia ajudá-la, com massagens e exercícios, apenas a manter-se o mais independente possível até o fim de sua vida e sem dores no corpo. Uma quinta-feira do mês passado foi a última vez que eu a vi, ainda andando com sua bengala e escrevendo com mão trêmula, sempre agradecida porque saía da massagem com um senso de conforto no corpo. Não dizia nada, porque não conseguia falar, mas não ía embora sem o meu beijo de despedida. Duas semanas antes parecia ter readquirido um vigor perdido ao ouvir o concerto em la menor por piano e orquestra de Grieg, que eu havia ligado baixinho enquanto a massageava. Levantou a cabeça e o tronco (estava deitada na maca), bateu palmas com vigor e fez vocalizações de contentamento ao ouvir os primeiros acordes do piano. A enfermeira que a acompanhava explicou-me que ela gostava muito de piano. Duas semanas depois teria um surto que a imobilizaria na cama por pouco tempo. Dormiu por várias horas, acordou e ficou consciente durante algum tempo até “dormir” de novo e exalar tranquilamente o último respiro. Não que setenta e poucos anos sejam uma idade boa para morrer! Mas, o problema (se é que há um) é ter uma morte a mais lúcida possível e a menos dolorosa possível, quando tiver que ocorrer. E acho que ela a teve também graças às massagens que recebia, que certamente tornaram sua doença, bastante grave, algo suportável. Um dia ela me confessou, com gestos, que tinha vontade de se matar. Quando a doença tirou-lhe o resto de fala que ainda lhe restava e o sabor da comida que não podia mais ingerir, ela sentiu uma rebelião engendrar-se em seu coração. Sinto que de alguma forma ela superou o medo da morte e a raiva pela situação de vida a que estava relegada e preparou-se para morrer. E a morte veio doce, tranquila, ainda que inesperada, apesar de prevista.

 

De massagista a massoterapeuta.

 

A massagem é uma das artes curativas mais antigas da humanidade, mas, em nosso meio cultural, perdeu-se no tempo, quiçá pela ideia de que o espírito e não o corpo devia ser cultivado. O fato é que não existe, no ocidente, uma tradição familiar do uso medicinal da massagem, como ainda há no oriente. Ela, porém, foi redescoberta pelos europeus no século XIX na esteira de viagens ao oriente e adaptada ao meio ocidental, imbuído de conhecimentos anatômicos e fisiológicos da biomedicina moderna. Nos últimos dois séculos, a massagem foi desfrutada principalmente pelos ricos frequentadores dos centros termais e, mais recentemente, pelos desportistas cada vez mais submetidos à competição individual e grupal.

 

A massagem sempre ficou à margem da medicina oficial, embora ela tivesse sido recodificada no ocidente por médicos e alguns deles a receitem para seus pacientes. Ela sempre foi exercida por práticos, tanto no oriente como no ocidente. Todavia, no oriente, ela faz parte de um sistema médico que inclui, além da massagem, a fitoterapia e a acupuntura e é objeto de estudo dos cursos de medicina tradicional. Entre nós, apenas recentemente a massagem tornou-se objeto de uma formação profissional de nível superior (Fisioterapia) e de nível técnico, assumindo as feições de uma terapia: a massoterapia. Ainda hoje, a maioria dos massoterapeutas (não-fisioterapeutas) é formada por práticos que a aprenderam de modo informal ou semiformal. Não sendo uma prática corrente   da medicina oficial, a massoterapia não é reconhecida pelos sistemas de saúde como importante instrumento de saúde pública, não sendo aplicada no Sistema Único de Saúde e não recebendo, em geral, reembolso do sistema de saúde complementar (a não ser em alguns casos, quando aplicada por fisioterapeutas).

 

Massagem, canja e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

 

Todos os bons manuais de massoterapia enumeram uma grande quantidade de benefícios que a massagem propicia. Ela é benéfica tanto na prevenção, como na cura e na reabilitação. Massagem faz bem para todos (se bem aplicada, evidentemente!) e não adianta dizer que não há comprovação científica (pois há estudos sobre seus efeitos), até porque é muito fácil comprovar seus benefícios. Basta submeter-se a uma sessão de massagem para sentir como ela faz bem para as pessoas, inclusive do ponto de vista do bem-estar psíquico. Podemos elencar vários efeitos, agrupados em duas categorias: os efeitos mecânicos, provocados pelo contato manual, e os psíquicos, gerados pelo contato pessoal e pela influência dos efeitos mecânicos sobre o sitema nervoso. Os efeitos mecânicos podem ser locais, ocorrendo no local onde é feita a massagem, ou reflexos, como os que se produzem longe do local de aplicação. Como efeitos mecânicos podemos citar a melhora da circulação sangüínea e linfática, a estimulação nervosa, o aumento da temperatura da pele, o aumento do volume muscular e a tonificação dos músculos, a melhora do metabolismo muscular, o aumento do metabolismo das gorduras, o aumento da filtração renal, a estimulação da produção óssea, a melhora da função peristáltica do sitema digestório. O método de autocura Self-Healing utiliza ainda alguns tipos de massagens para recuperar a musculatura das pessoas afetadas por distrofias, diminuindo o ritmo de suas perdas musculares, e para melhorar muitos problemas de visão. Os efeitos psíquicos dependem muito da interação entre quem aplica a massagem e quem a recebe. Quando se estabelece uma boa liga entre os dois, há uma sintonia respiratória e circulatória, com uma ativação da energia da pessoa que recebe a massagem.

 

O massoterapeuta deve estar muito centrado, energizado, relaxado e bem disposto em relação a seu cliente para que isso aconteça e este, por sua vez, deve estar receptivo à ação do terapeuta. Podemos dizer que a massagem visa o reequilíbrio energético, o bem-estar físico e psíquico, o relaxamento físico e mental, o alívio de dores, a consciência corporal, o aumento da sensibilidade e da capacidade de percepção, um sentido de segurança pessoal e de autoconhecimento, um acréscimo de energia para enfrentar a realidade do cotidiano, a recuperação de mobilidade e movimentos e a conquista de um novo equilíbrio psicofísico. São benefícios importantes para uma terapia manual não invasiva aparentemente inócua como a massoterapia! Não há contraindicações para a massoterapia, embora seja evidente que ninguém está autorizado a massagear regiões do corpo afetadas por traumas, dores agudas ou problemas de pele. Mesmo assim, a massagem na parte do corpo não afetada pode trazer grande benefício às partes afetadas. Mesmo em caso de câncer de tipo metastático, nos quais teme-se que a massagem acelere a difusão do câncer no corpo, há estudos que indicam não ser ela contraindicada, desde que adequadamente aplicada. Pensando bem, como negar a um doente canceroso maior bem-estar, quando as terapias médicas tradicionais antitumorais são tão invasivas e conturbadoras de seu equilíbrio físio-psíquico, considerando, também, que a massagem pode melhorar as condições gerais de seu sistema imune, capaz de combater o próprio câncer?

 

Massagem e velhice: um casamento rejuvenescedor.

 

Moro em um bairro que tem uma alta concentração de pessoas idosas. Elas estão em todo lugar: na rua, no supermercado, na igreja, no restaurante, no parque. Muitos há que se movimentam com graça e energia, mas há, também, os que arrastam pernas apoiados em bengalas e acompanhantes. Quando os vejo, sempre me pergunto se eles pensam que é normal para um velho ser corcunda e arrastar pernas. Há muitas pessoas que devem achar isso, porque a todos é dado melhorar o movimento do corpo e, aparentemente, nada fazem para melhorá-lo.

 

Mesmo os que aparentam ter dinheiro para pagar suas curas. Às vezes vejo os filhos já maduros cuidando de seus velhos decrépitos com muito carinho e pergunto-me se eles têm a consciência de que a decrepitude não é característica obrigatória da velhice. Por que será que esse carinho todo não se traduz numa atitude de rebeldia contra a decrepitude? Por que não gastam algum tempo e algum dinheiro para que seus velhos tenham um corpo menos sofrido e mais independente dos cuidados alheios, por filiais que sejam? Garanto que se dispõem a gastar rios de dinheiro na farmácia, para controlar com remédios poderosos inúmeros problemas de saúde, a maior parte deles ocasionados pelos próprios remédios (há pessoas que tomam dúzias de remédios por dia – veja as dificuldades da administração destes remédios – sem que alguém possa saber quais seus efeitos reais no corpo; nem os próprios médicos sabem os efeitos das interações medicamentosas de tantos remédios). A massagem, acompanhada de exercícios leves (ativos e passivos) pode melhorar a situação de vida de qualquer idoso, por adoentado que esteja, até o ponto de fazer reverter situações de desequilíbrio da saúde muito complicadas. A melhora e a cura está em cada um, em sua mente, na medida em que ela seja capaz de pensar em si mesmo como em alguém em via de restabelecimento e não alguém definitivamente vencido por algum mal.

 

Autocura: um novo equilíbrio para sua saúde

 

Termino com algumas observações de Meir Schneider, criador do método de auto cura Self-Healing, que se apresenta a seus clientes como “professor” de auto cura. "Descobri que trabalhar o aumento da mobilidade e superar outros sintomas é melhor do que qualquer pensamento ou afirmação positiva; é a ação física em si (massagem e exercícios – n.d.r.) que pode nos ajudar a evitar os perigos da depressão, permanecer otimistas e positivos e manter uma abordagem saudável."

 

 "Apresentei ao grupo (em palestra aos portadores de esclerose múltipla – n.d.r.) a minha opinião, baseada no meu extenso trabalho com esclerose múltipla: que todos podiam melhorar, contanto
que prestassem atenção e fossem muito conscientes de suas restrições. Se uma restrição é a fadiga, precisa-se ter consciência disso, perceber quando ela está se aproximando, e descansar. Se a restrição é falta de vontade de se mover por causa da depressão, é preciso imediatamente usar exercícios de movimentos suaves e sutis para reduzir a sensação de desesperança. O movimento que leva a uma mudança de padrão, o movimento que é fora do comum para nós, é o tipo de movimento que ajudará a fortalecer o sistema nervoso central." "Por fim, falei sobre a questão de remédios. Muitas pessoas com esclerose múltipla estão tomando remédios e muitas vão tomar outros remédios que estão sendo desenvolvidos o tempo todo. Disse-lhes que, na minha opinião, praticar movimentos, como eu acabara de ensinar-lhes, seria sempre o melhor recurso para melhorar sua saúde."

 

 

Morrer curado

Falar de morte em portal de gerontologia pode soar como falar de corda em casa de enforcado. É comum as pessoas associarem morte a velhice, como se a velhice fosse causa da morte. E como a morte é "coisa ruim", a velhice também passa a ser algo "assombrado" pela figura da morte. A velhice é vista por muitos não como um período de vida tão passível de êxitos quanto os outros –infância, juventude e maturidade, mas como um tempo de espera (geralmente em estado de depressão) do fim da vida.

 

Envelhecer é morrer?

 

A velhice é um fato sociocultural e não um processo biológico e, portanto, ela não pode interferir na vida biológica do ser. As idades da velhice mudam com o mudar do "envelhecimento" da sociedade humana: antigamente envelhecia-se e morria-se (em média) em idade muito mais juvenil do que hoje e daqui, digamos, a 50 anos, provavelmente as pessoas morrerão (em média) em idade mais adiantada do que hoje. Como para a infância, a juventude e a maturidade, a idade da velhice é o período em que a sociedade espera que as pessoas se comportem de acordo com papéis que ela ajudou a definir; por exemplo, é a idade de ser avô ou avó, de se aposentar, de manifestar sabedoria e recolhimento, de se preparar para a morte.

 

Velhice, então, é um fato sociocultural; entretanto, envelhecimento é um fato biológico, ainda não totalmente esclarecido pela ciência. Ele consiste em perdas funcionais limitadas em nossos órgãos – por exemplo, a partir dos 20 anos começamos a perder um pouco de nossa capacidade de sentir cheiros. Dessa forma, algum dia, um ou vários de nossos órgãos cessam de funcionar a contento, sob a influência das condições de vida que cada um possui, provocando nossa morte. Somos, então, levados a pensar que o envelhecimento causa nossa morte. Mas, se assim fosse, só velhos morreriam. Todos sabemos que é suficiente estarmos vivos para morrermos e que, infelizmente, muitas crianças e jovens morrem por outras causas que não o envelhecimento.

 

O que causa a morte?

 

Assim resta-nos apenas admitir que nós, seres humanos, morremos porque é da nossa essência não sermos imortais. Alguns autores já imaginaram como seria a existência humana se nós fôssemos imortais. Já pensaram como seria a sociedade humana feita de gente que vive, vive, vive e não morre? No mínimo, haveria desde há muito um superpovoamento da Terra, obrigando-nos a colonizar outros planetas ou a tornar infértil a raça humana, para permitir a sobrevivência dos que já teriam nascido... Provavelmente ninguém de nós estaria aqui discutindo esse tema.

 

O envelhecimento biológico cumpre nossa sina de termos um fim biológico, acompanhando os ciclos de nascimento e morte de toda a natureza, quando sobrevivemos até idade avançada, após ter driblado as inúmeras ocasiões de morte que cada um de nós enfrenta ao longo de sua vida. Leonard Shlain já disse, em 1979 , que se fôssemos como seres vivos simples e primitivos, que se reproduzem assexuadamente por multiplicação celular, poderíamos considerar-nos imortais, pois, ao nos reproduzirmos de forma como que "clonada", subsistiríamos para sempre em nossos "clones". Seríamos imortais, mas sem personalidade própria, pois seríamos idênticos a todos os "clones" saídos de nós ou que nos precederam. Ao contrário, nós, os humanos, como todos os animais superiores, ganhamos uma personalidade única ao nascermos de forma sexuada, pois nenhuma combinação de genes, neste tipo de reprodução, é igual a outra. Assim, com a evolução, teríamos trocado a imortalidade impessoal pela individualidade mortal.

 

Por que falar de morte?

 

Em nossa sociedade perdeu-se o convívio com a morte. Ela é um fato cotidiano na imprensa, como notícia das desgraças "dos outros", mas deixou de ser uma presença-experiência na vida de cada um. Poucas pessoas veem um familiar ou um amigo morrer perto de si. Poucos sabem o que é morrer e menos ainda aprendem a morrer (a tradição budista tibetana ensina seus discípulos a morrer). Hoje a morte ocorre nos hospitais, onde também é "escondida", porque ela representa o "insucesso" do médico e da empresa hospitalar. Pois é, morrer é um insucesso, não é um ato que faz parte de nossa existência. Rubem Alves , apresenta-nos a morte como conselheira lúcida (ela "tem o poder de colocar todas as coisas em seus devidos lugares") e estimula-nos a não fantasiar-nos de onipotentes para "nos livrarmos de seu toque". Seria inútil, pois conseguiríamos apenas adiá-la e "quanto mais poderosos formos perante ela (...), mais tolos nos tornamos na arte de viver": "Não, não, a Morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que nos fala com voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver". Falar da morte é falar da vida como ela é, sem escamoteá-la, sem adulterá-la. Pois ela deveria nos acompanhar naturalmente em todas as fases de nossa vida, desde a infância até a hora de morrer.

 

O ideal da vida: morrer curado?

 

O filósofo francês André Comte-Sponville é o autor do título que escolhi para este artigo "Morrer curado?" Ele reconhece que a medicina moderna, ou científica, fez progressos enormes na manutenção da saúde e no combate às doenças, mas, nem por isso, diz ele, deixa-se de morrer: "E o que mais antigo do que a morte? Seria parvoice imaginar que a medicina pudesse mudar o todo de nossa existência, e é dessa parvoice que se deve libertar-se primeiro." É bem verdade que as pessoas vivem mais tempo, mas esta afirmação, para Comte-Sponville, tem apenas um sentido estatístico: "Ora, não é ‘a gente’ que morre: é um indivíduo, e todos eles morrem.(...) Se considerarmos esse indivíduo em sua singularidade concreta, e não mais na abstração das estatísticas, continua a ser verdade que ele vive por mais tempo do que o que ele poderia ter esperado um ou dois séculos mais cedo. Mas que morra menos, não: morre mais tarde, mas do mesmo jeito".

 

As pessoas pedem aos médicos que os curem, mas curar não é salvar, diz o filósofo francês:

"A saúde não é uma salvação, este é o ponto, e é o que veda à medicina ser uma religião. Porque

o homem é mortal, a medicina traz em si seu limite ou seu fracasso. Profissão trágica, portanto,

que se confronta com o pior quase cotidianamente, e que só sabe adiar o momento de sua última derrota." Morrer curado é um paradoxo a indicar que a medicina e a saúde não bastam para evitar

a morte. Mas poderia ser, também, a indicação de um caminho para a vida, ou como nos diz o mesmo Comte-Sponville: "Se a doença é o contrário do normal, como se está de acordo em pensar, cumpre tirar daí as consequências: a velhice não é uma doença, a morte não é uma doença, já que é normal que se envelheça e que se morra. Que se possa morrer com boa saúde não é, então, nem absurdo nem contraditório. Envelhecer e morrer fazem parte de nosso destino comum, de nossa normalidade biológica." Morrer curado pode significar que é possível morrer tendo boa saúde (num acidente, numa tragédia) ou, também, que não precisamos de viver uma velhice doentia para morrer. Podemos viver uma velhice "sarada" e, no fim e só no fim, morrer, como se diz, de

morte "natural".

 

Vida saudável, velhice saudável

 

Esse é o caminho escolhido por muitas pessoas, as quais entenderam que habitos saudáveis de

vida mantêm nosso organismo em melhores condições para enfrentarmos, durante toda a vida, e inclusive na velhice, o impacto de possíveis desequilíbrios advindos de problemas internos ou externos,. Não se trata de perseguir a todo custo um ideal de saúde, como se esta fosse a nossa felicidade, mas de reconhecer que o nosso organismo é um sistema aberto, em contato com todos os demais sistemas orgânicos da Terra e do universo. Como tal, possui enorme capacidade de auto regulação e transcendência (auto superação), permitindo-nos alcançar um equilíbrio sempre renovado entre o corpo, a mente e o mundo que nos rodeia. Este equilíbrio é essencial para

que possamos gozar a plenitude da vida, na busca da felicidade e do sentido do viver.

 

Autocuidados para a auto cura (self-healing)

 

A maioria das pessoas sabe, hoje em dia, quais são as práticas saudáveis de autocuidado para manter sua saúde ou para recuperá-la. Quem não sabe que é necessário ter uma alimentação variada e processada artificialmente o menos possível; não abusar de drogas de todo tipo; fazer exercícios, combatendo o sedentarismo; estar conectado com a realidade de forma positiva, afastando sentimentos negativos; manter ligações afetivas e saber expressar sentimentos; ocupar o tempo

com atividades relevantes, para si mesmo e para os outros? O que muitas pessoas não sabem fazer

é conseguir mudar sua rotina de vida para ajustá-la a tais práticas saudáveis. Para Meir Schneider, criador do método Self-Healing (auto cura), a resistência à mudança de rotina, que provoca a doença ou impede sua cura, é devida à nossa mente. Segundo ele, "a mente é uma consciência            não-material que habita todas as partes do corpo" e que faz a mediação entre o corpo e o mundo exterior (percepção) e entre o corpo e o cérebro (informação ao cérebro e execução motora).

A mente é rígida e limita nossa capacidade de utilizar o cérebro, sendo que nosso corpo é uma criação de nossa mente: o corpo faz o que a mente (não o cérebro) manda. Assim, "se eu achar que não posso executar determinada tarefa, minha mente informará isso a meu cérebro, e este instruirá meus músculos no sentido de que não podem fazê-lo."

 

É dessa forma que muitas pessoas conseguem não se mexer, apesar de saber claramente que o sedentarismo faz mal a elas e que uma boa caminhada diária poderia recuperar sua saúde abalada. Sua mente pensa que seu corpo não aguentaria cinco minutos de caminhada e, por isso, seu cérebro não requisita os músculos para caminhar; assim, elas nem tentam dar os primeiros passos. Meir afirma que a inteligência inata do corpo é impedida de expressar-se devido às limitações impostas pela mente e que nenhuma patologia pode ocorrer sem a plena cooperação da mente.

 

Superando as dificuldades para a auto cura

 

A mesma realidade que nos amarra aos nossos hábitos não saudáveis pode servir para superá-los. Meir expressa esta verdade, dizendo que "a compreensão de que a mente governa o corpo é o primeiro passo vital para a compreensão do corpo e de suas funções". Assim, por intermédio da mente também podemos reeducar os músculos de maneira vantajosa, para obtermos uma cura.

A mesma mente que pode nos apequenar, pode nos agigantar. A mesma mente que pode nos convencer de que não vamos sarar, pode alimentar em nós a certeza de que podemos nos curar.

Para obter uma cura, Meir alerta-nos: "devemos trabalhar não só com o corpo, mas também com

a mente, de modo que o conceito não-material da saúde se manifeste em nosso ser material. Isso demanda, é claro, muito trabalho.

 

As mãos carinhosas de um amigo, terapeuta, pai ou companheiro, podem ajudar a propiciar uma saudável estimulação aos nossos músculos e aos nossos nervos." Mas como enfrentar a depressão que muitas vezes assalta pessoas que de repente vêem seu corpo tomado por uma grave enfermidade?

O primeiro passo é modificar nosso pensamento, diz Meir: "Por intermédio da mente, é possível inverter o processo de degeneração física. Podemos eliminar a idéia de inevitabilidade da doença. Se nos sentirmos fracos, pequenos ou indefesos, podemos praticar exercícios – físicos e mentais – que nos darão um sentido de expansibilidade." O segredo para sairmos de nossa depressão é apegarmo-nos a alguma descoberta repentina de alívio ou prazer que surja em nosso corpo, como uma âncora valiosa para uma longa caminhada de cura: "Se observamos no corpo alguma tendência para melhorar, qualquer indicação de que um processo de degeneração está sendo invertido, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para estimulá-lo. Podemos permitir ao corpo que fique mais à vontade consigo mesmo, que se torne mais flexível e menos sujeito ao estresse. Ainda que tenhamos sofrido danos nos nervos e nos músculos, esses tecidos podem regenerar-se mediante um programa de exercícios mentais e físicos." Este é o caminho do "milagre" e quem

pode fazê-lo não é o terapeuta, mas você que espera por ele.

 

 

Movimento, ainda que tardio

Em artigo anterior escrito para o Portal do Envelhecimento eu convidava os idosos a se massagearem ou a procurar um profissional massoterapeuta para prevenir e vencer a decrepitude. Dizia eu que decrepitude não é uma característica inerente à velhice, podendo ser prevenida e superada em algum grau, se não totalmente. Massagem é movimento induzido no corpo por alguém (ou por você mesmo, na automassagem, ou pelo massoterapeuta que cuida de você) e o movimento é vida. Todo corpo vivo se movimenta e aprende a manter-se vivo pelo movimento.

 

A criança, quando nasce, movimenta-se seguindo alguns instintos que a natureza lhe deu: mexe os lábios em busca de um seio que a alimente e mexe cabeça, braços e pernas em busca de uma coordenação e de uma maturidade muscular que lhe permita se virar, olhar, engatinhar, levantar, andar, falar. Através do movimento aprendemos a fazer tudo isso, sem que ninguém nos diga o que fazer e como fazer. No entanto, uma vez tendo aprendido a andar e falar, começamos a ser ensinados sobre o quê fazer e como fazê-lo. É assim que aprendemos, por exemplo, a ler e a escrever e todas as disciplinas que são objeto de estudo na escola. Neste contexto, deixamos de aprender de forma espontânea as coisas que podem satisfazer nossas necessidades vitais e passamos a fazer exercícios repetitivos até alcançar um desempenho pré-definido como justo e necessário.

 

O justo e o necessário são conceitos que uma sociedade estabelece para definir o critério de sucesso para se viver nesta sociedade. Isso vale, se não para todos, para a maioria das pessoas. Para as inúmeras habilidades de um ser humano, há um desempenho sofrível ou médio ou excelente ou superlativo. Todos nós caminhamos, mas há corredores de maratona que percorrem quilômetros em tempos recordes. Todos cantamos, mas há quem saiba cultivar sua voz de modo a cantar óperas com esmero. Todos escrevemos, mas alguns têm o "dom" da poesia e da narrativa. Enfim, toda habilidade é passível de ser desenvolvida até alcançar limites inimagináveis, coisa que não fazemos porque ensinam-nos a aprender o justo e o necessário. Todavia, quando esse justo e necessário se torna insuficiente para prover a satisfação de nossas necessidades vitais, podemos recorrer a nossa capacidade incondicionada de aprendizagem, que possuíamos quando bebês.                   A necessidade cria virtude, diz um ditado. Pessoas que perderam suas mãos ou nasceram sem elas podem tornar seus pés tão hábeis quanto as mãos que lhes faltam. Outros, com grave deficiência visual, podem "enxergar" por meio dos demais sentidos, deixando-os mais apurados do que os da maioria das pessoas.

 

É isso mesmo que podemos fazer quando percebemos que estamos entrando ou  já entramos em um estado de decrepitude. Com a falta de movimento ou com o movimento limitado e "viciado" que nosso corpo produz, de repente descobrimo-nos cada vez mais incapazes de saltar, pular, correr, levantar, se agachar (até de andar sem esforço), de se pentear, se vestir, calçar sapatos, fazer tarefas domésticas corriqueiras e assim por diante. Isto é o começo de uma involução física, na qual estamos sucumbindo à força de gravidade a que estamos submetidos neste mundo terrestre. O nosso corpo vai se inclinando, criando uma corcunda (cifose), criando torsões de nossa espinha (escoliose), comprimindo o nosso peito, fazendo diminuir nossa capacidade respiratória e, desta forma, provocando uma diminuição da oxigenação de todo o corpo. Esta é a decrepitude, que pode alcançar inclusive nosso cérebro e, com ele, afetar nossas capacidades cognitivas, na medida em que nossos tecidos cerebrais percam boa circulação sanguínea e boa oxigenação. Nesse momento, quando nos damos conta da precariedade de nossa situação física e mental, devemos afastar a ideia pré-concebida de que isso é próprio da velhice, que não há o que fazer, já que vivemos o que tínhamos que viver, que "tudo bem gostaria de sair dessa, mas não sei como...". Sabe sim! Sempre soube! Quando você era bebê sabia disso... é só se lembrar... e começar de novo, aprendendo o que desaprendeu, através do movimento. Porque movimento é vida!

 

Modificar a auto imagem da decrepitude

 

Na superfície externa de nosso cérebro há uma camada de tecido (o córtex) que é sede de uma série de controles de nosso corpo; entre eles o controle do movimento. No córtex motor, "desenha-se" a imagem de nosso corpo, de forma proporcional não ao tamanho de cada parte, mas à sua capacidade de movimento. Quanto mais elaborado o movimento, maior a área de controle. Assim, a área de controle de nossa mão é muito maior que a área de controle de nossas costas, pois o que sabemos fazer com nossas mãos é muito mais variado e rico que o que sabemos fazer com nossas costas. Esta imagem cortical vai se formando à medida que aprendemos a nos mexer e a adquirir habilidades de movimento e vai se transformando à medida que essas habilidades vão sendo alteradas. Assim, quem perdeu as mãos e resolveu dotar seus pés de movimentos finos e variados, terá sua área cortical dos pés muito mais amplificada do que antes. Isto significa que nosso cérebro não nasce completo nem definido, mas sim que ele se constrói a partir de nossas experiências de vida. E não há limite de idade para isso.

 

Esta plasticidade é uma característica de nosso cérebro que não se extingüe com o envelhecimento (ao envelhecermos, há, no máximo, uma diminuição da velocidade com que as modificações cerebrais ocorrem) . Esta auto imagem cerebral pode não ser consciente, mas de alguma forma ela aflora para nossa consciência, na medida em que somos confrontados com a realidade. Assim, se no dia a dia nos sentimos tolhidos em nossos movimentos para execução das atividades diárias, aos poucos iremos nos perceber como pessoas incapazes de fazer isto mais aquilo mais aquilo outro...ao ponto das pessoas, que por algum motivo tiveram que recorrer a uma cadeira de rodas para se locomover, não conseguirem mais se imaginar sozinhas de pé e andando. Parece até que a cadeira de rodas passa a fazer parte do corpo! Para sair de um estado de decrepitude é necessário, então, modificar a imagem cerebral de nosso corpo. Como fazer isso? Através do movimento.

 

Descobrir como fazer, de forma fácil e agradável, movimentos que não imaginávamos mais saber fazer é o começo de um redesenhar nosso corpo em nosso cérebro, na busca não do justo e do necessário, mas do melhor. Melhor que antes, melhor para mim, melhor para sentir prazer, melhor para continuar a melhorar, melhor para ter novas opções de movimento e mais liberdade.

 

 

Perceber o corpo para mudar os hábitos

 

O movimento sem a percepção das modificações que ele engendra em nosso corpo só serve para criar hábitos. Eles são importantes para a vida corriqueira,  pois precisamos de automatismos para viver e, sobretudo, para sobreviver nos momentos de perigo. Mas eles, também, são limitantes, porque delimitam nosso desempenho ao nível e ao tipo de padrão de movimento já conseguido, enquanto nosso potencial de ação é muito superior. Perceber algo implica não apenas estar conscientes de uma situação, mas também prestar atenção aos componentes desta situação. Certamente estou consciente quando ando, mas se não prestar atenção não saberei dizer nada sobre o meu andar (como era a calçada, se havia plantas e jardins, se cruzei com pessoas e que tipo de pessoas, se andava com leveza ou não, e assim por diante). O mesmo ocorre com os movimentos corporais. Se apenas me exercito, posso estar consciente mas nada perceber com relação               a meu corpo (que movimentos, que relações espaciais, que sensações, que equilíbrio, que tensões ou relaxamentos, etc.). Assim, se nos encontrássemos              na situação que chamamos de decrepitude, apenas manter nossos hábitos já adquiridos em nada mudaria nossa situação de vida. Poderia somente ajudar-nos  a continuar sobrevivendo, de forma cada vez mais penosa.

 

Precisamos prestar atenção ao nosso corpo em movimento para perceber suas possibilidades de mudança, por pequeninas que sejam. Para que isso seja possível não devemos multiplicar esforços musculares, pois o aumento do esforço impedirá as percepções sutis e provocará contrações musculares contrárias ao movimento que queremos produzir. Para entender isso é só pensar como perceberíamos o peso leve de uma borracha se a levantássemos juntamente com a mesa sobre a qual ela está posta (levantando primeiro a mesa sozinha e depois a mesa com a borracha em cima). Não haveria jeito para isso, pois o esforço para levantar a mesa anularia a percepção do peso da borracha. No entanto, se reduzíssemos nosso esforço e levantássemos um papel e, depois, o mesmo papel com a mesma borracha leve que pusemos sobre a mesa, perceberíamos certamente a diferença de peso do papel sem borracha e com borracha.

 

A percepção do movimento corporal se obtém reduzindo o esforço colocado no movimento e não aumentando-o. Portanto, um critério para saber quais práticas corporais são adequadas para se criar uma percepção corporal é sua simplicidade, suavidade e lentidão. A sorte está lançada, desde que você nasceu. Importa conhecê-la? Há quem perscrute muitos sinais para tentar descobri-la. Há, também, quem busque estes sinais na sua capacidade de mudar e mudar para melhor, para ser mais livre; quem sabe, para cumprir livremente seu destino.

 

 

Plasticidade cerebral

Envelhecimento, plasticidade do cérebro e saúde

 

O biólogo celular Leonard Hayflick informa-nos que o cérebro humano, que no recém-nascido pesa aproximadamente 280 gramas, alcança, aos vinte anos, o peso de 1.200 gramas. Após esta idade, o cérebro vai perdendo peso até alcançar, aos 90 anos, 90% do peso que tinha em juventude. Apenas uma parte mínima desta perda (cinco gramas em 50 anos) refere-se às células cerebrais, as quais desempenham a coordenação das atividades sensório-motoras e de inter-relação entre os vários centros nervosos. Além de perder células, o cérebro vai diminuindo sua produção de substâncias químicas neurotransmissoras, que medeiam as relações intercelulares.

 

Senilidade não decorre de envelhecimento

 

A perda de células nervosas e de fluidos neurotransmissores, no envelhecimento,  é um fato comprovado, mas não o é a relação desta perda com a redução das funções mentais. Isto significa que a senilidade (um estado de decrepitude física  ou mental) não é uma conseqüência natural do envelhecimento (como até os dicionários às vezes sugerem), mas o fruto de alguma alteração orgânica específica que provoca em nós algum estado mórbido. Esta consciência, segundo Hayflick, surgiu principalmente com a conscientização das pessoas de que o       Mal de Alzheimer, que produz um estado demencial e que afeta um número relevante de pessoas idosas, é uma doença e não uma consequência natural do envelhecimento. Hayflick chega a afirmar que "essa percepção significou mais para nossa compreensão do processo normal de envelhecimento do que qualquer descoberta laboratorial recente sobre o envelhecimento do cérebro humano".               O que a plasticidade cerebral tem a ver com isso? É importante saber se nosso cérebro, apesar de sofrer, ao longo do tempo, um processo de envelhecimento é capaz de manter até o fim da vida as funções vitais que dele dependem.                        Para a recuperação de nossa saúde, também, não é absolutamente indiferente saber se temos condições, durante toda nossa existência, de ativar o cérebro para recuperar, ao menos em parte, funções perdidas em decorrência de danos sofridos.

 

Conceito tradicional de plasticidade cerebral

 

Joan Stiles, cientista da Universidade da Califórnia, em um artigo de revisão sobre plasticidade neural e desenvolvimento cognitivo (2000) refere-nos que a neuropsicologia/biologia tradicional acreditava que apenas o cérebro em desenvolvimento possuía uma capacidade transitória de reorganização plástica, que lhe permite reduzir os danos de eventuais lesões sofridas pelo cérebro.                     O cérebro adulto não teria esta característica, estando assim os adultos e os anciãos condenados a resignar-se diante de eventuais incapacidades decorrentes de danos cerebrais.

 

Novo conceito de plasticidade cerebral

 

No entanto, vários estudos realizados na década de ’90, seja em animais como em pessoas adultas mostraram que a plasticidade não é transitória (isto é, ativa apenas na idade do desenvolvimento), nem é somente reativa (estimulada na ocorrência de perdas devidas a danos cerebrais), nem apenas auxiliar ou compensatória (como se fosse apenas um processo não essencial ao próprio desenvolvimento do cérebro). Stiles diz que quando se fala em plasticidade neural ou cerebral, queremos referir-nos a vários tipos de funções.

 

Quando nos referimos a um processo, plasticidade significa uma configuração dinâmica do sistema nervoso, que traz uma mudança estrutural ou funcional.               Se referimos plasticidade a uma capacidade adaptativa, quer-se significar que a mudança observada produz um recrutamento de novos ou de diferentes recursos neurais, em decorrência de um fato externo (por exemplo, uma lesão ou uma estimulação da consciência cinestésica – vide adiante). Quando referida a um conceito de organização, plasticidade significa que o processo em que ela se dá                 é sistemático e não apenas devido ao acaso, como consequência de interações sistemáticas entre estruturas cerebrais e estímulos ambientais. Pois então, todos estes significados do conceito de plasticidade neural ou cerebral são válidos não apenas para o cérebro em desenvolvimento como também para o cérebro maduro.

 

Descobriu-se que a plasticidade não é apenas reativa a fatos externos (uma lesão, por exemplo), mas uma característica própria do sistema cerebral. Mesmo no cérebro em desenvolvimento, não há uma evolução passiva a partir de sistemas pré-determinados: ocorrem períodos de superprodução de células nervosas e de ligações sinápticas aos quais se seguem períodos de perda de neurônios e de sinapses. Isto porque o cérebro vai fixando padrões de funcionamento em decorrência de configurações estruturais próprias e também de condições de estímulos provenientes do meio. Estabelecem-se vias neurais competitivas e somente algumas delas são fixadas como padrão ao longo do desenvolvimento cerebral. Isto significa que, durante o desenvolvimento normal ocorrem mudanças adaptativas e plásticas que configuram padrões estruturais e de funcionamento cerebrais.

 

Há evidências de que a maior complexidade do cérebro maduro pode limitar a extensão de sua capacidade plástica; no entanto ela persiste ao longo da vida toda, não excluído o período da velhice.

 

Plasticidade cerebral e saúde

 

A ciência confirma agora o que as tradições médicas sempre souberam, isto é, que é sempre tempo de prevenir doenças e recuperar funções perdidas. De fato, podemos estimular e ensinar nosso cérebro, através de estímulos apropriados, para que ele descubra novos caminhos de funcionamento mais eficientes do que os que já possuímos ou do que aqueles que já perdemos por efeito de acidentes e incidentes que ocorrem em nossas vidas. Meir Schneider, criador do método terapêutico Self-Healing, aponta-nos alguns caminhos para a estimulação cerebral com intenção de manutenção e recuperação da saúde: a percepção cinestésica corporal pelo movimento (ativo e passivo), a massagem focada nas partes do corpo e a visualização (imaginação) do movimento. Ele nos alerta para o fato de que não podemos conhecer nosso corpo pelo intelecto, pois este é apenas um conhecimento externo sobre o corpo, qualquer que seja a teoria que escolhamos para entendê-lo.

 

O verdadeiro conhecimento do corpo se dá pela percepção cinestésica (sensação do movimento) do próprio corpo: mover é sentir e sentir é saber. Através da percepção sensorial do movimento (interno ou externo) de uma parte do corpo despertamos nosso cérebro para que atue sobre ela, registrando sua existência e sua presença aqui e agora, nas condições atuais, comparando-as com as que nossa memória e experiência anterior  já possuía a respeito dessa mesma parte  do corpo. Na fala de Meir: "Quando presta atenção a uma parte específica de seu corpo, você estimula os nervos que ligam aquela parte a seu cérebro – e, assim, você também estimula o cérebro. Prestar atenção ao que sente, a como sente cada parte do corpo, vai fortalecer sua consciência cinestésica". A melhor maneira para fazer isso, segundo Meir, é movimentar-se de modos não habituais, pois desta forma, retira-se uma carga em excesso sobre algumas partes do corpo que ficam em atividades rotineiras (gerando insensibilidade) e permite-se, também, a outros nervos e músculos que não eram ativados começarem ou voltarem a funcionar.

 

REFERÊNCIAS

 

1. Joan STILES. Neural plasticity and cognitive development. Developmental Neuropsychology, Lawrence Erlbaum Associates, 2000, 18(2), 237-72..

2. Leonard HYFLICK. Como e por que envelhecemos. Rio de Janeiro: Campus, 1997, 366 p.

3. Meir SCHNEIDER, Maureen LARKIN, Dror SCHNEIDER. Manual de autocura: método self-healing. São Paulo: Triom, 1998,Vol. I, 216 p. e 1999, Vol. II, 183 p. Por Giulio Vicini, psicólogo, mestre em Gerontologia e terapeuta corporal, autor do livro editado por SENAC-SP "Abraço afetuoso em corpo sofrido", sobre uma visão integral de saúde para idosos..

 

 

Velhos e deprimidos – Ainda dá pra sorrir?

Velhos deprimem-se porque estão a caminho da morte? Porque são isolados de seu grupo de relacionamento, quando decidem ir viver numa instituição para idosos? Ou, pior, quando outros decidem isso por eles? Ou, ainda, porque alguma pessoa querida de seu relacionamento faleceu? Ou por quantos outros motivos? Estudos sobre a prevalência de doenças em diferentes regiões e grupos sociais revelam que a depressão afeta numerosas pessoas de ambos os sexos, mas sobretudo mulheres, em qualquer idade e, também, na velhice. O psiquiatra Leonard Cammer disse, já há quase quarenta anos, que a depressão era uma ocorrência tão comum que podia ser considerada "perfeitamente normal". Evidentemente, há exagero nesta afirmação, pois na verdade nem todos somos deprimidos. Todavia, a depressão expressa uma condição de vida bastante comum para as pessoas nestes últimos quarenta anos. Uma condição de vida, porque a depressão é algo mais duradouro do que episódios de dor, aflição, tristeza e desilusão, pelos quais passam as pessoas sãs, que, porém, na maior parte do tempo, se sentirão bem em suas relações, em seu trabalho e em seu lazer. Um violino de cordas frouxas.

 

O que distingue a depressão de qualquer outro estado emocional, segundo Lowen , é a incapacidade de responder a estímulos. Enquanto a pessoa desanimada pode voltar a ter fé na vida, logo que mudarem as circunstâncias do momento que está vivendo, se a pessoa triste pode iluminar-se diante da perspectiva de alguma alegria, nada consegue fazer estimular uma pessoa deprimida; ao contrário, perspectivas de diversão e prazer podem torná-la mais deprimida ainda. Para entender essas diferenças, Lowen compara a pessoa a um violino. Quando o instrumento está afinado, as cordas vibram sonoramente permitindo tocar qualquer música, alegre ou triste. Se tocarmos um violino desafinado, teremos um resultado musical desastroso, cacofônico. Mas se as cordas estiverem frouxas, sem qualquer tônus, o instrumento será incapaz de qualquer resposta musical, estará inerte, exatamente como a pessoa deprimida. Evidentemente, esta incapacidade de responder a estímulos terá oportunidade de evidenciar-se mais nas pessoas profundamente deprimidas e em menor grau nas menos deprimidas (que os médicos chamam de distímicas). Estas últimas aparecem como "normais" ao olhar menos atento, pois conseguem desempenhar suas tarefas cotidianas ainda de forma competente. Mas elas têm consciência de sua depressão, queixam-se dela e são percebidas como deprimidas por quem convive com elas. Não se pode confundir com uma pessoa deprimida uma pessoa que sofre uma desilusão por causa de uma perda econômico-financeira ou uma perda de oportunidade de trabalho ou de ascensão na carreira. Esta pessoa ficará triste, mas não imobilizada; expressará sua tristeza ou até raiva pelo acontecido, mas não perderá sua capacidade de reavaliar sua situação e de se dedicar a nova empreitada. De forma semelhante, não há como confundir uma pessoa deprimida com alguém que encontra dificuldades ou tem falta de sorte ou mesmo sofre uma perda afetiva. Todas estas situações acarretarão sentimentos de tristeza que distinguem uma pessoa deprimida, justamente, por esta ser incapaz de expressar sentimentos. Uma pessoa enlutada por causa de uma perda afetiva, normalmente, expressa sentimentos de tristeza ou de raiva por causa desta perda. Segue-se o pranto, como expressão da dor que ela sente e tal manifestação permite que seu corpo se libere do bloqueio de energia que a dor lhe causou e que esteja novamente disponível para a vida. O corpo dessensibilizado se desvitaliza

 

A depressão não é uma emoção, pois representa justamente a falta de emoção. O que causa a depressão é a repressão da emoção. Quando nos obrigamos a frear alguma ação que julgamos inconveniente num determinado momento, estamos bloqueando um comportamento; temos, porém, consciência do desejo ou impulso que nos levaria a fazer algo e que afinal deixamos de fazer. O bloqueio ocorre na superfície do corpo, logo antes que ele se movimente; mas, seja o impulso como o sentimento que lhe é conexo puderam manifestar-se a partir do interior do corpo até à sua superfície, onde então a ação de resposta ao impulso/sentimento foi retida conscientemente. Muitas vezes, porém, chegamos a bloquear a própria manifestação do desejo e do sentimento que o acompanha, pois ele é retido no interior do corpo e não chega à superfície: nossa musculatura, cronicamente em tensão, não deixa passar o sentimento e ele é rechaçado (reprimido) para dentro do corpo, a um nível em que não é percebido. Isto ocorre quando, por circunstâncias de nossa vida, somos levados a reter seguidamente as expressões de nossos sentimentos ou desejos; a parte de nosso corpo que seria sensibilizada pelos impulsos/sentimentos perde sua sensibilidade e nossa musculatura se contrai de forma crônica. Assim, tudo o que acontece nessa parte de nosso corpo escapa à nossa consciência e esta região se dessensibiliza, se desvitaliza. Cada parte do corpo dessensibilizada reduz a vitalidade de todo o organismo e é isso que ocorre na pessoa deprimida, até o extremo de parecer morta viva. Mas depressão não significa uma situação de morte; ela pode ser considerada uma reação de nosso organismo para se reequilibrar, fazendo cessar um gasto excessivo de energia (atrás de ilusões ou de tentativas de vencer a apatia pela vontade, como veremos em seguida), dando assim ao corpo o tempo necessário para se recuperar. O corpo deprimido é incapaz de prazer

 

Mas, o que produz a dessensibilização de nosso corpo? Lowen atribui este fato à perda do afeto da mãe. Tal perda provoca dor na criança, fazendo-a, então, reagir com um sentimento de raiva, a fim de tentar superar a contração muscular que a dor gerou em seu corpo. As sensações e a energia são retiradas da superfície do corpo (onde o prazer se manifesta) e retidas e concentradas no aparelho muscular, de onde elas podem ser descarregadas somente através de uma ação de tipo violento. Esta reação é uma descarga de raiva seguida de uma descarga de choro e soluços, após a qual é então possível ter de novo a energia disponível para as funções prazerosas do corpo. Se a descarga não se completar, o organismo fica biologicamente bloqueado quanto à possibilidade de nova busca de prazer. Lowen julga que sempre existe uma mãe ausente na origem da depressão. Ausente por ter morrido ou ter-se ausentado fisicamente, por qualquer motivo, ou ausente por, embora presente, manifestar hostilidade diuturna para com a criança. Ou ainda, uma mãe ausente que não pôde ser substituída por nenhuma outra figura feminina capaz de satisfazer as necessidades afetivas e de contato corpóreo da criança pequena. A perda do amor da mãe faz com que a pessoa deprimida sinta, ao longo de sua vida, necessidades que a mãe não pôde ou não quis (consciente ou inconscientemente) satisfazer: ter contatos corporais (inclusive chupar e ser aquecido), ser sustentado, ser objeto de atenção e de aprovação. Na pessoa adulta, esses desejos insatisfeitos revelam-se em certos comportamentos, como incapacidade de ficar sozinho, medo da separação, excesso de loquacidade ou outras reações exacerbadas, habilidade para atrair a atenção dos outros contando vantagens ou de alguma outra forma, sensibilidade elevada ao frio e atitude de dependência. De repente ficou deprimida sem motivo aparente

 

Não é fácil explicar como uma pessoa aparentemente cheia de energia possa cair de repente num estado de depressão. Às vezes, isto ocorre depois de uma grande desilusão, do esvanecimento de um grande sonho. Há uma semelhança entre pessoas deprimidas e dependentes de álcool, antes delas entrarem em depressão ou antes do alcoolismo tornar-se problemático para elas.Tanto o deprimido como o alcoólico, provavelmente manifestavam uma energia que depois viria a lhes faltar, porque a desenvolviam de forma compulsiva, como reação a seus problemas e não como expressão de sua vitalidade. De repente, a compulsão cede e a falta de energia aparece claramente. Lowen pensa que o alcoolismo, assim como o uso de drogas, são uma forma de cobertura da depressão (se formos computar como deprimidos todos os que têm dependência de álcool e drogas, veremos que o número de deprimidos em nossa sociedade supera qualquer expectativa). Todavia, é mais comum a reação de depressão manifestar-se sem a ocorrência de qualquer fato específico e, assim, a falta de energia aparece como a causa mais evidente deste estado de bloqueio das emoções. O adulto ou o idoso que fica deprimido tem um histórico anterior de depressão, mesmo que imperceptível. A depressão não nasce na velhice; nasce na infãncia e se desenvolve de forma mais ou menos evidente, dependendo da gravidade dos acontecimentos que a geraram, das tentativas da pessoa para tentar superá-la e da possibilidade de figuras susbstitutas adequadas satisfazerem suas necessidades quando criança. Uma perda afetiva ou uma contrariedade muito aversiva (como por exemplo ser asilado à revelia) podem ser episódios que desencadeiam uma depressão, mas não são sua causa. Se a pessoa possui uma vitalidade normal sabe enfrentar qualquer contrariedade que a vida lhe apresenta, mesmo que passe por grande sofrimento. Mas isso é impossível para o deprimido, justamente por lhe faltar a vitalidade suficiente na hora das dificuldades. Desvitalizado, sem forças para reagir ou mesmo expressar seus sentimentos, o deprimido fica alheio à realidade da vida e se deixa viver ou até pensa em não mais viver. Mas, como já foi mencionado anteriormente, na maioria das vezes não há motivo desencadeante aparente; tudo ocorre como se a linfa secasse de repente no corpo do deprimido. Do entusiamo à depressão – uma gangorra de altos e baixos

 

Nem todas as pessoas deprimidas mantêm-se apáticas e alheias à vida o tempo todo. Freqüentemente, as pessoas deprimidas parecem conseguir sair do fundo da depressão e retornar à vida, manifestando entusiamo e euforia, ás vezes tão exaltados que os outros à sua volta julgariam excessivos. A pessoa eufórica é hiperativa, fala com rapidez, expressa suas idéias com facilidade e as solta quase como uma avalanche, manifesta uma auto-estima à prova de contestação. Ela age como se fosse uma criança que, separada da mãe, espera excitada o momento de reencontrá-la. Porém, a energia despendida pela pessoa deprimida para viver seu período de exaltação é apenas superficial, limita-se à cabeça e à superfície do corpo, onde se ativa o sistema muscular voluntário, que produz justamente a hiperatividade que lhe é peculiar. Esta energia remanescente no indivíduo dirige-se para a parte superior do corpo, com o objetivo de concentrar a atenção sobre a pessoa, numa tentativa de restaurar um sentido de onipotência infantil prematuramente perdido. A pessoa exaltada manifesta superexcitação como se estivesse esperando por um acontecimento milagroso, capaz de realizar seus desejos mais profundos. Na pessoa deprimida e que periodicamente se exalta, a perda do amor da mãe nunca foi aceita como irrevogável. Por isso, continua esperando, que este amor lhe seja restituído. Esta pessoa, inconscientemente, considera os que estão à sua volta como substitutos da mãe e deles fica esperando que a amem, que cuidem dela, que a sustentem e a nutram. Ocorre muitas vezes que estas pessoas não tenham condições de cuidar do deprimido como se ele fosse uma criança. Nenhuma pessoa adulta pode obter, de substitutos maternos, a segurança que não teve na infância. Ela deve obtê-la em si mesma, através do amor, do trabalho e da sexualidade. Assim, o interesse inicial das pessoas chegadas ao deprimido transforma-se mais ou menos rapidamente em incômodo, que logo as afasta dele . O afastamento é interpretado pelo deprimido como rejeição; sua auto-estima esvazia-se como uma bexiga furada e o eufórico cai na depressão. A energia que havia excitado as estruturas periféricas do corpo retira-se para o seu centro, na região do diafragma, do estômago e do plexo solar, onde fica retida. Por essas razões, há na vida de muitas pessoas deprimidas um alternar-se contínuo de estados de euforia e de estados de depressão. O deprimido dá cabo de sua energia perseguindo ilusões

 

Lowen constata que há amarras exteriores e interiores que aprisionam as pessoas nas garras da depressão. Em nossa vida diária podemos sentir-nos impedidos de nos expressar livremente na política, na família, na escola, no trabalho, nas relações sociais. A expressão de si mesmo é fundamental para que a personalidade de cada um se estruture e se manifeste.Tal expressão é basicamente um fenômeno corporal, pois consiste na manifestação de todos os sentimentos, dos quais o amor é o mais profundo. A pessoa tolhida constantemente em sua expressão de si acaba fechando seus canais expressivos e tornando-se vítima da depressão. Toda sociedade limita a expressão de si para obter coesão social, mas tais limitações são aceitáveis apenas se não inibem demasiadamente tal expressão. Porém, a pessoa pode ter dentro de si mesma outras amarras até mais aprisionantes, freqüentemente inconscientes ou racionalizadas, do que as externas. A pessoa percebe-se aprisionada por barreiras "daquilo que se deve ou não se deve fazer" e assim sente-se oprimida. Para libertar-se desta opressão, ela acaba construindo sonhos e ilusões de libertação. Estes sonhos geram projetos e metas a serem perseguidos. Entre os sonhos mais freqüentes que muitos perseguem em nossa sociedade há os da riqueza, da fama, do sucesso e da beleza. Dificilmente tais metas fazem bem para a interioridade das pessoas. Nem o dinheiro, nem a fama ou a beleza podem sozinhos oferecer as satisfações interiores que dão um sentido à nossa vida. Prova disso é que ricos e famosos também se deprimem. O verdadeiro objetivo de alcançar a fama e de ganhar dinheiro é a necessidade de ser alguém e isto geralmente revela uma grande falta de auto-estima, que ocorre quando negamos a importância de nosso corpo. Então, faltando-nos uma imagem corporal satisfatória, nós precisamos construir uma outra imagem baseada na posição social, política ou econômica. É possível sair do fundo da depressão?

 

È muito difícil que uma pessoa deprimida consiga superar por si mesma o estado de depressão, pois ela, geralmente, não tem consciência de que seu problema maior está na falta de energia em seu corpo. Ela pensa que se trata de um problema de falta de vontade e talvez se martirize por causa disso. As pessoas que estão em volta dela também costumam achar a mesma coisa e pensam em ajudá-la estimulando-a a empenhar-se nos compromissos ou a procurar atividades supostamente prazerosas. No entanto, como o corpo da pessoa deprimida está desvitalizado e não está disponível ao prazer, esses incitamentos revelam-se ineficazes. Lowen julga que a vontade seja um mecanismo emergencial de grande valia para a sobrevivência humana, mas de nenhum valor para a obtenção do prazer, isto porque o corpo não funciona com base na vontade da pessoa, mas com os recursos de sua própria força vital inata. Também ocorre que as pessoas que manifestam comportamento de alternância de humor – períodos de euforia seguidos de fases de depressão – não percebam que despendem suas parcas energias correndo atrás de sonhos (quando eufóricas), cujos projetos costumam estar fadados ao fracasso e não à solução de seus problemas. Então, o que fazer? A visão médica

 

Para a medicina, a depressão é um transtorno psiquiátrico de tipo "desordem mental", caracterizado por várias manifestações, tais como, perda de interesse ou prazer por atividades antes prazerosas, humor deprimido durante a maior parte do dia, alteração significativa de peso (geralmente perda), alteração do padrão normal de sono, agitação ou depressão psicomotora, fadiga ou perda de energia, sentimentos de culpa ou inutilidade, dificuldade de concentração, pensamentos recorrentes de morte e suicídio e tentativas de suicídio. Tais características podem ser mascaradas no idoso e a depressão nele pode apresentar-se de formas atípicas (agitação psicomotora, hiperfagia e hipersonia ) ou ainda associada a delírios e alucinações (depressão psicótica); ela pode ainda ser secundária, ou seja, originada por alguma outra doença orgânica. Para afastar essa possibilidade, é sempre interessante submeter-se a diagnósticos médicos que indiquem que não há doença orgânica na origem da depressão. Por causa do mascaramento dos sintomas e de sua atipicidade muitas vezes a depressão não é identificada pelos médicos não-especialistas, de forma que boa parte dos idosos deprimidos não recebe tratamento médico adequado. Os médicos dizem que quando o diagnostico da depressão é bem feito e o tratamento adequado, o prognóstico é de recuperação da maioria dos pacientes (entre 70 e 90%). Não explicam porém o que entendem por "recuperação": se uma volta à normalidade da vida, sob controle permanente ou não de remédios, e com a capacidade recobrada do prazer ou sem prazeres. Para eles é sempre necessário o tratamento com fármacos antidepressivos, mesmo nos quadros leves. Julgam também essencial, além dos medicamentos, um tratamento psicoterapêutico que envolva toda a família da pessoa deprimida. Difícil é saber como combinar adequadamente um tratamento medicamentoso, freqüentemente extenso no tempo e em doses elevadas, que condiciona o físico e o espírito da pessoa, com uma psicoterapia em que a personalidade do deprimido pode aparecer como "embaçada" ou alterada pelos efeitos dos remédios. Respirar para recuperar a saúde na depressão

 

Mas, que tipo de psicoterapia funciona melhor na depressão? Segundo Lowen, é mais fácil e eficaz uma psicoterapia em que se trabalhe com o paciente no aspecto físico ou energético de sua personalidade que no aspecto psíquico ou de seus interesses, considerando que sua resistência a interessar-se ativamente pela realidade do mundo é enorme. Isso, pelo menos, no início do tratamento. Nem por isso o aspecto psíquico pode ser ignorado em todo o processo de recuperação da saúde. Lowen assegura que qualquer técnica de ativação da respiração consegue melhorar o estado de ânimo do deprimido, porque a melhora da respiração aumenta a corrente de excitação corporal, conduzindo-o, em um período mais ou menos longo, a alguma forma de liberação emocional, geralmente através do choro ou da raiva. Este é o objetivo principal da terapia, considerando que a depressão decorre justamente da repressão das emoções; a abordagem corporal, permitindo efeitos imediatos, ainda no começo da terapia, revela ao deprimido que ele pode dispor de uma solução para seus problemas diferente da que ele já tentou sem resultados – a da superação de seus problemas pela força de vontade – implicando normalmente no esgotamento de suas forças corporais. Para este tipo de psicoterapia é necessário procurar um terapeuta que siga a linha da análise bioenergética (www.analisebioenergetica.com.br; www.bioenergetica.com.br ; www.centroreichiano.com.br ). Na falta deste, outros, que lidam com psicoterapia corporal seguindo outras linhas de trabalho, poderão ser encontrados. Na falta destes também, pode-se combinar uma psicoterapia clássica, de tipo verbal, com exercícios de respiração e massagens para relaxar a musculatura do corpo, a fim de facilitar a expressão e os sentimentos da pessoa deprimida. Para isto, um terapeuta de Self-Healing de Meir Schneider pode ser procurado (www.self-healing.com.br) ou então um terapeuta ocupacional ou massoterapeuta com boa disposição para descobrir como ajudar uma pessoa deprimida. Todos os exercícios que aprofundem a respiração são úteis e os ambientes bucólicos que podem relaxar a pessoa e fazê-la respirar melhor também são indicados. O contato com a natureza é fundamental para a recuperação da vitalidade do corpo, tendo em vista que o que falta na nossa cultura também ao deprimido é a percepção de que ele é natureza e que a natureza nele é seu próprio corpo. Reconstruir o si pela expressão de si mesmo

 

Qualquer terapia – e nisto incluo práticas adequadas de atendimento aos deprimidos por parte de seus cuidadores, para ter uma eficácia mais duradoura para a cura da depressão deve procurar superar o efeito aviltante e deformante da perda do amor. Todavia o terapeuta/cuidador não pode ser um substituto da mãe, mas sim ter atitudes como as de apoiar moralmente o paciente, dar-lhe segurança afetiva e confortá-lo, inclusive através de contato físico amigável. Também, deve-se tratar o deprimido adulto como adulto e não como a criança que ele gostaria de continuar a ser, na vã esperança de recuperar o amor da mãe que não teve em criança. Deve-se reconhecer a criança insatisfeita nele, mas não satisfazer suas demandas de criança. O foco da terapia e dos cuidados deve ser a profunda alteração de seu funcionamento corporal, posto que esta é a realidade de seu ser. Reclamar a perda do afeto da mãe não reconduz a vitalide ao corpo do deprimido e o que importa é reconstruir o si (pela expressão dos sentimentos), desenvolver o pleno funcionamento do corpo e radicar-se na realidade presente (não nas perdas do passado ou em sonhos da irrealidade). Não faz sentido um adulto reclamar de desejos infantis insatisfeitos. Para Lowen, um adulto.não pode reclamar a não ser a perda de seu pleno potencial de ser humano. É oportuno alertar as pessoas, quando em estado de euforia, para que se acautelem, pois logo se verão em dificuldade com as contrariedades e recairão na depressão. As fantasias não são um bom caminho para sair da depressão. Melhor é manter uma pessoa deprimida em contato com seus problemas: uma pessoa abatida está mais próxima do chão, portanto de seus problemas, da realidade e é do chão que ela precisa para reerguer-se em bases sólidas. Muitos deprimidos esperam que a terapia ou os remédios libere de forma mágica uma reserva intacta de energia. É difícil para eles aceitarem que seu corpo precisa recuperar sua própria energia, quando se sentem fisicamente cansados, porque não atinam para o fato de que usaram suas reservas de energia por muitos anos sem renová-las e que, sobrevinda a depressão, estas reservas estão exauridas. Cabe ao terapeuta/cuidador fazer-lhes entender a necessidade de recomposição da energia do corpo e da condição de que isto apenas é possível com o devido tempo e o devido descanso. Suicídio, ato hostil

 

Às vezes, a pessoa profundamente deprimida pode engendrar pensamentos suicidas e acabar de fato com sua vida. Além disso decorrer de um sentimento de profunda recusa de seu próprio corpo (ele não corresponde às suas imagens), geralmente pode também significar um ato hostil para com a família. De fato, a pessoa potencialmente suicida poderia achar que sua família não está à altura de suas expectativas e assim atribuir a ela sua profunda desilusão. Lowen revela ter ajudado suicidas potenciais a afastar de si idéias autodestrutivas, mostrando a eles este sentido de hostilidade. Tal comportamento costuma gerar sentimentos de raiva nos deprimidos. A hostilidade pode, então, extravasar de maneira menos destrutiva que não o suicídio, manifestando-se de forma mais branda através da raiva. A liberação dos sentimentos negativos reprimidos permite que a reação de depressão vá relaxando a força de suas garras sobre o corpo do deprimido, levando também à melhora de sua auto-estima, estilhaçada justamente pelos sentimentos negativos não expressos. O deprimido costuma alimentar sentimentos de culpa: porque não age adequadamente, é um fardo para os outros, é uma "ducha fria" para o bom humor de qualquer pessoa. A depressão aparece-lhe como a expressão de sua falência. O senso de culpa aumenta sua depressão criando um círculo vicioso do qual ele não consegue sair sozinho. Lowen julga que o fato de considerar a depressão uma doença pode liberar o deprimido da parte superficial de seu sentimento de culpa em relação à depressão, diminuindo seu sentido de falência. O apoio do terapeuta/cuidador pode então surtir algum efeito para fazer mover o deprimido em direção à vida. Recuperar a saúde é recuperar a fé do deprimido

 

A fé na vida é transmitida pela mãe ao bebê, através do aleitamento e dos cuidados. O afeto da mãe, traduzido nas suas constantes atenções à criança, gera nela a fé na existência e constrói nela o sentimento de que pode se entregar à vida, pois suas necessidades serão satisfeitas. A criança adquire assim confiança no mundo e em si mesma como sujeito que tem direito de receber e de buscar a satisfação de suas necessidades. A criança que perde a fé na mãe, porque ela não está sendo capaz de satisfazê-la, perde também a confiança em si mesma, nas suas sensações, nos seus impulsos, no seu próprio corpo. Este, aos poucos, vai se fechando às sensações e aos sentimentos, para superar a dor que a perda do afeto da mãe lhe acarreta, e cria áreas corporais desvitalizadas, começando assim um processo de reação depressiva. "O sentimento da fé é o sentimento da vida fluindo no corpo (...). Quando não há bloqueios nem constrições que perturbem ou distorçam o fluxo, o indivíduo experimenta em si mesmo, uma unidade e uma continuidade (grifo meu). Os diferentes aspectos de sua personalidade estão integrados, não dissociados. Não é uma pessoa espiritual em oposição a uma pessoa sexual (...).Sua sexualidade é expressão da sua espiritualidade porque é um ato de amor. Sua espiritualidade tem um sabor telúrico ; é o espírito da vida que ele respeita e vê manifestado em todas as criaturas da Terra. Não é uma pessoa cuja mente domine o corpo nem é um corpo que não tem mente. É uma pessoa que se reflete em seu corpo. Mas de igual importância é o seu sentido de continuidade. Ele vem do passado, existe no presente, mas pertence ao futuro (...). Sem fé e sem estar ligado ao futuro a vida de alguém torna-se parada, como acontece com as pessoas deprimidas (...). As pessoas com uma fé verdadeira se distinguem por uma qualidade que nós todos conhecemos. Essa qualidade é a graça. (...)." (Lowen, obra citada, p.218-20) Saberemos que uma pessoa deprimida está readquirindo sua fé e, portanto, reconstruindo sua energia vital, quando percebermos que ela está em contato com seu corpo e consciente de seus próprios sentimentos. Poderá estar livre, então, de qualquer episódio importante de depressão.