Ezio Okamura

psicólogo formado pela PUC/SP, tem experiência como professor de universidades e trabalho em empresas. Atua na área de Neuropsicologia Clínica.

A vida pós fase de trabalho de 8 horas diárias

Caráter e envelhecimento

Um ser invisível dentro da família?

A vida pós fase de trabalho de 8 horas diárias

Trabalhei como tantos outros profissionais por mais de 35 anos com "carteira assinada". Não faltaram sonhos e entusiasmos, dínamos típicos da juventude e da "idade da razão". Aconteceram, é claro, muitas frustrações e também muitas realizações nestes períodos da vida. Vivi em minha trajetória em várias regiões do País.

 

Interessante como utilizei muito a referência de São Paulo para me orientar, guiar e também avaliar esses vários locais. Se não tivesse feito isso, pelo menos inicialmente, certamente teria ficado paralisado muito tempo, sem saber como fazer para alcançar adequação e resultados. Por exemplo: ao atravessar a Rio Branco no Rio, reparei (várias vezes) que chegava à outra calçada antes da maioria das pessoas (pensei, cariocas folgados!). Notei também como o asfalto era macio ao afundar sob o meus sapatos e que eu ficava molhado de suor (pensei: culpa da Empresa que exigia terno e gravata naquela Cidade Maravilhosa em pleno mês de janeiro!). Na verdade o adequado era caminhar na maciota mesmo, como os cariocas. Sem marchar ou correr como em São Paulo (para suar a camisa, que herói no trabalho!), e ainda mais arriscando-me a perder os sapatos no asfalto!

 

Confesso entretanto que não aprendi a ter o andar descontraído e porque não, gingado como os dos cariocas. Outra coisa. Nas Capitais do Norte não chame ou pergunte pelos nomes que estão nos mapas (como se faz em São Paulo) as ruas e avenidas principais. Os nativos dirão que não as conhecem. Av Efigênio Salles (assim, com dois eles, como no mapa) em Manaus? Não. É a V8. Por que?

 

Ninguém sabe Av. Barata Ribeiro em Belém? Os nativos dizem, a Central. Em São José dos Campos, entretanto (onde vivi por mais de 16 anos) todos chamam as ruas e avenidas pelos seus nomes oficiais (Será qe é porque esta é uma cidade do interior do estado – todo organizadinho – de São Paulo?) Mas, falando em São Paulo já de volta e, aposentado, fiz a clássica pergunta: e agora José? Ou melhor e agora Ezio? Poderia ter melhor planejado esta fase da vida... Como não tinha feito isso seriamente... Bem agora, Inês já é morta... Pensei: Por que não uma franquia na área da Educação? Mas a empresa franqueadora me mostrou as consequências naturais de minha idade (eu ia dizendo "de meu envelhecimento", mas senti que não caia bem e, certas verdades caem dessa forma mesmo! Paciência...). Ela fez alguns testes cognitivos (simples: conhecimentos gerais, gramática, aritmética) onde era fundamental a prontidão e muita rapidez. Adivinhem o resultado... (adeus franquia!) Recorri a rede de relacionamentos que conservara (como a internet é essencial para isso!). É evidente que daí fui me reinserindo na realidade São Paulo. Não necessariamente para obter novas fontes de renda. O que interessa é que se obtém novos sentidos na vida. Você se exercita social, cultural e cognitivamente. E como isso é importante na senescência (aliás para todas as fases da vida, por que não?). Voltei também a estudar, fazendo curso de especialização que tem a ver com a minha área de formação (senti-me em casa!). Já tinha feito outras, mas em áreas algo distantes de minha área acadêmica. Elas, nesse caso, foram instrumentos para certas alavancagens profissionais. Acho que deram o sentido devido para realidades que estava vivendo nessas épocas (diferentes da atual). Interessante assinalar que a decisão de estudar novamente veio no bojo do estabelecimento de novos contatos sociais (isso também é muito importante) e que tem trazido outras consequências agradáveis como o convite para ministrar algumas disciplinas desse curso (coisa que já comecei). Estou tendo certos desafios como a prática da psicoterapia e também das realizações de avaliações e habilitações neuropsicológicas. Participo recentemente de um grupo de meditação para ajudar no controle de hipertensão. Posso dizer, para finalizar, que a vida, pós fase de trabalhar todos os dias 8-12 horas, pode ser, sim, desafiador, com sentido e gratificante (mesmo que você não tenha assim planejado).

 

 

Caráter e Envelhecimento

“Caráter” suscita logo seus aspectos valorativos. Por promessas não cumpridas, cinismo e hipocrisia, o indivíduo revela ter mau caráter. Aquele que é firme, que não se deixa corromper, ou cuidou sozinho da esposa paralítica nos seus 10 anos finais de vida, revela bom caráter. Nesta acepção, caráter é um conceito explicativo e justificativo de diversos tipos de conduta.

 

Que outras dimensões possui essa palavra?

 

Etimologicamente, vem do grego “kharakter”, marca gravada, sulcada. Metaforicamente, significa marca, impressão ou símbolo da alma, qualidade que a define. Relaciona-se com “kharessein”, gravar e também com “kharax”, instrumento pontiagudo. Em inglês, símbolo impresso ou cunhado no corpo e na alma.

 

Portanto, além do aspecto de superfície, de comportamento, caráter possui uma característica de profundidade relacionada à alma e a algo também como um símbolo, uma marca criada, sulcada, indelével que se revela também no corpo.

 

O caráter de uma pessoa é único, inescapável e pode-se observar seus desdobramentos intermináveis no tempo. Envelhecimento é a realização contínua e última do caráter.

 

Preciso de óculos para ler meu jornal com mais conforto. Agora anoto as senhas do meu note ou do caixa eletrônico. Não corro mais para aproveitar o sinal que começa a piscar no vermelho para atravessar a rua. Demoro mais para lembrar os nomes de meus amigos ou das ruas onde eles moram. A pele dos meus braços e rosto têm mais dobrinhas e manchas. É assim que percebo meu envelhecimento acontecendo. As pessoas me dão lugar no metrô, carros frequentemente param para eu atravessar a rua, atendentes de serviços indicam filas ou lugares preferenciais. Esses fatos dizem também que estou envelhecendo.

 

Nem nosso corpo, nem nossa mente permanecem os mesmos; eles não conseguem evitar a mudança. O que parece verdadeiro durante todo o tempo e até o fim é um duradouro componente psicológico, cunhado em cada pessoa e que a torna diferente de todas as outras: o seu caráter individual. Aquele você que é sempre o mesmo. Alguma coisa continua a me assegurar que sou o mesmo. Poderia perder minha identidade social (não sei mais quem sou eu), minha configuração física (posso estar desfigurado por queimaduras ou por um desastre de carro), e minha história pessoal (memória pessoal que desapareceu por minha mente despedaçada). No entanto alguma coisa permanecerá a mesma, ultrapassando essas vicissitudes radicais: o caráter é esse cerne que não se altera. (baseado em James Hillman – A Força do Caráter).

 

Estudos da fisiologia humana revelam uma sabedoria em ação. Considera-se o caráter mais do que uma coleção de características ou um acúmulo de hábitos virtudes ou vícios. Caráter é uma força ativa, princípio formador do envelhecimento do corpo. O envelhecimento se torna então uma revelação da sabedoria do corpo.

 

Esperto, tímido, sensato, ponderado, hesitante, astuto, bondoso, cruel, etc. são características pelas quais conhecemos a natureza de nossa alma. Constituem a infraestrutura que dá propósito e forma àquilo que acontece com o corpo. Constituem também a força do caráter. Viver uma vida longa, isto é, envelhecer, ajuda na confecção da alma e na plena realização do caráter.

 

Os mitos da antiga Grécia são tramas, enredos, dramas conspiratórios que mostram a possibilidade de localizarmos e revelarmos o caráter humano, quando posto em contraste com um pano de fundo de seus personagens.

 

Essa forma de abordagem permite compreensão mais profunda do caráter e, por consequência, da velhice, favorecida pela introdução também de figuras e forças arquetípicas da ancestralidade humana.

 

Cícero, em sua obra De Senectude, contrariando a ideia de que existem certas qualidade típicas atribuíveis à velhice, diz “Os idosos são rabugentos, perturbados, nervosos e difíceis de serem contentados; (...) alguns deles são sovinas, também. No entanto, estes são defeitos do caráter, não da idade”.

 

A tradição clássica reconheceria nas características descritas acima uma força arquetípica afetando o caráter, dirigida por Saturno, o deus dos sovinas e do sofrimento.