Que emoções a velhice lhe traz?

 

A pergunta pode incomodar algumas pessoas. Ainda há muito preconceito em nossa sociedade sobre o envelhecer e as palavras que rondam a passagem dos anos. Velho, idoso, terceira idade, afinal, como chamar? Mais do que um nome, importa sentir e por isso o Ideac resolveu realizar essa série, perguntando para pessoas de várias idades sobre as emoções que a velhice traz. Um exercício que todos, independente da idade, podem fazer. Afinal, se não está velho certamente tem velhos à sua volta. E um dia, também vai ficar...

 

Flavio Gikovate, psiquiatra, psicoterapeuta, palestrante, escritor e apresentador do programa “No Divã com Gikovate” na CBN

Cada fase tem seu charme, seus desconfortos “Para mim envelhecer foi e é uma surpresa. Quando penso nos números – anos de idade, de casado, de formado… – levo um susto. Confesso que jamais imaginei que eles fariam parte da minha vida. As dores aqui e acolá já não me aborrecem mais. Até pelo contrário, me tranquilizam à medida que são as mesmas todos os dias e “pioram” bem devagar, dando uma dimensão real da lentidão da deterioração. Isso me deixa otimista, pois penso que, se não houver nenhuma intercorrência grave, ainda poderei viver bem mais uns bons anos. Ao mesmo tempo, me dá a clara dimensão da finitude, a oportunidade de se acostumar com essa ideia e encará-la com naturalidade. As dores lembram que a energia não é mais a mesma e que convém me preservar cada vez mais. Elas neutralizam a sensação e o estado de espírito que me acompanha com frequência, quando estou em atividade e sem olhar para o espelho, de que ainda sou um jovem promissor, cheio de projetos e devaneios. A velhice é uma fase da vida interessante, mais leve que a da maturidade e que pode ser quase tão divertida quando a adolescência e os anos da mocidade: as responsabilidades diminuem e a liberdade volta a crescer, posto que, como regra, os filhos já se tornaram independentes e os pais já faleceram. Não sei se a velhice é a melhor idade, mas não acho que deva ser vista como a pior. Cada fase tem seu charme e seus desconfortos. Cabe a cada um fazer o melhor uso daquela que está vivenciando.”

Marcelo Médici, ator

As prioridades mudam de prateleiras “Não posso mentir que seja assustador. Lembro que ontem, aos 20 anos, eu achava que uma pessoa com 32, fosse alguém bem mais velho, com obrigação de ser bem-sucedido, resolvido, seguro e feliz. Sendo ator, vejo personagens que já não poderei mais interpretar, os primeiros fios de cabelos brancos e as noitadas que não deixam mais os dias seguintes serem iguais. Mas pela convivência com minha mãe (que me teve aos 40 anos) e com e minha avó, vejo como as prioridades mudam de prateleiras. 
O tempo começa a passar mais rápido e as importâncias sobre tudo, ficam mais claras. Deve ser isso 
a maturidade. E a sensação sobre isso, é de alívio.”

Mirian Goldenberg, antropóloga, escritora e professora

Aprendi a gostar dos meus defeitos “Quando fiz 40 anos fui, pela primeira vez na vida, a uma dermatologista para que ela me receitasse algum hidratante e um filtro solar, produtos que nunca tinha consumido até então. Após um breve exame da minha pele, ela, observando atentamente o meu rosto, perguntou: “Mirian, por que você não faz uma correção nas pálpebras? Elas estão muito caídas. Você vai ficar dez anos mais jovem. Por que você não faz um preenchimento ao redor dos lábios? Você vai ficar dez anos mais jovem. E botox na testa para tirar as rugas de expressão? Você vai rejuvenescer dez anos”. Paguei a cara consulta, que ficou mais cara ainda, pois provocou uma crise existencial que durou um ano. Faço ou não faço a cirurgia nas pálpebras? E preenchimento nos lábios? E botox na testa? Se eu fizer tudo o que ela recomendou, será que eu vou ficar dez + dez + dez anos mais jovem? Eu sou culpada por estar envelhecendo. A culpa é minha!
Nunca havia tido esse tipo de preocupação antes dessa visita. Confesso que fico feliz quando dizem que pareço ser muito mais jovem do que sou, especialmente quando os mais generosos (ou mentirosos) dizem que pareço ter 37 anos. Mergulhei profundamente na crise dos 40, saí dela após um ano de sofrimento e comecei a brincar com o meu processo de envelhecimento.
Como forma de criar uma resistência política lúdica, inventei o grupo Coroas, para todos aqueles que querem envelhecer em paz. Tentei seduzir minhas amigas para participarem dele e todas recusaram veementemente. Algumas disseram: Se for Coroas Enxutas eu participo. E outras: Se for Jovens Coroas ou Coroas Gostosas pode ser. A maioria reagiu indignada: Eu não sou Coroa! Um amigo me disse que se eu nomeasse o Coroas com K, e prometesse a cura da celulite, eu teria muito mais sucesso.
Como não consegui, até hoje, viabilizar a existência do meu grupo de resistência, resolvi batizar a minha banda de Coroas. É verdade, aprendi a cantar depois de velha e criei uma banda que será lançada em outubro de 2015. Assim, me assumo como fundadora, presidente, tesoureira, secretária e militante do Coroas. O Coroas faz parte do meu projeto de vida, que é lutar contra os estigmas e preconceitos que cercam o envelhecimento. Posso repetir, como as minhas pesquisadas: “É a primeira vez que eu me sinto livre para ser eu mesma. É a primeira vez na vida que posso brincar e rir de mim mesma. Aprendi a gostar dos meus defeitos e imperfeições. É o melhor momento de toda a minha vida”.
Por uma terna e eterna idade “Só agora que me toquei que a entrada na “melhor idade” vem ungida por lembranças emotivas do que não apenas nós vivemos, mas os nossos entes mais queridos e até mesmo seus antepassados vão cevando esse nosso caminho rumo à eternidade, uma terna e eterna idade que deixa a cidade impregnada de memórias olfativas, afetivas e epidérmicas. Dá até coceira… beijos”

Paulo Caruso, cartunista

Edson Celulari, ator

Beirando os 60 “Outro dia, me peguei feliz tentando estacionar o carro em um shopping e descobri que era por que, 
em breve, poderei usufruir da regalia das “Vagas para Idosos”. Não penso o mesmo com relação à “meia-entrada” para teatro e cinema, talvez pelo meu próprio ofício…kkk…mas sempre me pareceu uma lei bastante oportunista e questionável. Sobre o “Bilhete Gratuito de Transporte”, ainda não refleti, mas já soube que nem sempre os ônibus param para os idosos. Quem sabe, até eu chegar lá, isso muda e, então, também poderei me beneficiar deste privilégio de forma segura e confortável. A vida é surpreendente…eu que passei minha juventude rindo da piada: “Depois dos 60, quando você acordar, colocar o pé no chão e não sentir nenhuma dor, é porque você está morto.” Hoje, já percebendo algumas “dores”, me sinto mais vivo do que nunca. A idade madura, ou a melhor idade, ou a 3ª ou, ainda a Velhice, imagino, pode te trazer grandes benefícios, desde que seja vivida de forma saudável, harmoniosa e produtiva. Cada um à sua maneira. Será o momento de priorizar seus caminhos e o tempo. Se for preciso, será o momento para recomeçar ou, mesmo, para iniciar algo novo. Vejo muitos profissionais por aí, se aproximando dos 60 anos, pensando na aposentadoria e perdendo noites por isso. Também pudera, o quadro social para a velhice no nosso país não é dos melhores. O Brasil está envelhecendo e não se preparou para a finitude da sua população. É…parece que os tempos futuros não serão feitos de amenidades e isso, acreditem, me fortalece. Faço parte desta história, convivo com os meus comuns e com eles tentarei sobreviver, produzir e, se for preciso, modificar o que não atender ao todo. Para isso, precisarei estar com minha saúde física e psicológica equilibrada, de bem com minha afetividade, atualizado com os fatos e integrado ao meu coletivo. Creio que estou me encaminhando para ser um velhinho trabalhador, atuante e muito “reivindiquento”… e, enquanto eu tiver discernimento das coisas, que assim seja. Cada vez mais me certifico que só estará preparado para a velhice aquele que, desde antes, se preparou para tal. E, de alguma forma, todos já fazemos isso, é natural. Assim é a vida. Que bom.”

Silvio de Abreu, autor e supervisor de novelas

da TV Globo

Mais sabedoria, mais calma e maior prazer “Velhice. A primeira emoção é de ternura. Lembro meus pais, carinhosos, calmos, desfrutando a serenidade que conquistaram depois de anos de lutas e sacrifícios. Valeu a pena, sinto que é muito bom chegar à velhice sabendo que cada dissabor, cada frustração, toda a ansiedade ficou para trás, dando lugar a uma serenidade que não significa uma vida estática, sem emoções. Ao contrário, o tempo que ainda falta vai continuar sendo pleno de realizações, lutas, dissabores e frustrações, que serão vividos com mais sabedoria, mais calma e maior prazer.”

Jorge Félix é especialista em economia da longevidade, jornalista, professor e mestre em Economia Política pela PUC-SP. É autor do livro “Viver Muito”
(Ed. Leya)

Uma vida mais completa “Há casos em que a velhice dá, não uma eterna juventude mas, ao contrário, uma soberana liberdade, uma necessidade pura em que se desfruta de um momento de graça entre a vida e a morte, e em que todas as peças da máquina se combinam para enviar ao porvir um traço que atravesse as eras…”. É assim que os filósofos franceses Félix Guatarri (1930-1992) e Gilles Deleuze (1925-1995) abrem o livro “O que é filosofia?”. Segundo eles, a velhice é o momento de “falar concretamente”. Haviam passado a vida sem se questionar muito sobre aquilo que faziam tão bem: filosofar. É assim. Talvez a primeira emoção da velhice seja quando começamos a nos questionar mais profundamente e decidimos “falar concretamente” sobre o que queremos, o que somos, o que podemos e o que fazemos. Sobretudo a respeito do que queremos deixar. Em outras palavras, quando concluímos sobre o que vale ou não a pena. Coisas antes tão importantes, se apequenam. Coisas que sempre deixamos para lá ou para depois, voltam imperiosas. “Tínhamos muita vontade de fazer filosofia, não nos perguntávamos o que ela era, salvo por exercício de estilo; não tínhamos atingido este ponto de não-estilo em que se pode dizer enfim: mas o que é isso que fiz toda a minha vida?”, escrevem Félix e Deleuze. Não. Não é um balanço que os filósofos se propõem. Balanços implicam em saldos positivos ou negativos. O “não-estilo” é a chance de sair das convenções. Viver outras experiências, outras emoções, outras aventuras. Não é também outra vida. É, diria eu, uma vida mais completa. E ainda bem que o ponto de não-estilo está cada vez mais longo no século XXI.”
Dizer não sem culpa “Envelhecer é aceitar as limitações e se abrir para novas possibilidades, entre elas, a de dizer não sem culpa. E, acima de tudo, agradecer a Deus e à vida que foram generosos conosco, pois, afinal, envelhecer ainda é a melhor opção.”

Maria Adelaide Amaral, dramaturga, autora de diversas obras para teatro e televisão

Estou pronta para a estreia

 

“Envelhecimento. Terei de escrever algumas linhas sobre o meu envelhecimento. Então é o seguinte: em primeiro lugar, não tenho ideia o que é isso, nunca tive tempo de avaliar os anos que passaram praticamente sem eu perceber. Passei pelos 10,20,30,40,50,60 e agora 70 aliás 78 quase 80.

É estranho colocar no papel, eu tenho realmente de me parabenizar pela caminhada e plena, cheia de realizações, desafios, acertos, erros mas uma coisa é certa: muito amor. Sou eu agora bem diferente do começo da caminhada, menos radical. O que vier daqui para frente é tudo de bom.

Já ouvi muito que a vida é um ensaio geral, acho que estou prontinha para a estreia.”

 

 

Marika Gidali, bailarina, coreógrafa, professora e diretora artística do Ballet Stagium; fundadora do projeto social Joaninha voltado para crianças e adolescentes

Mário Prata, escritor, dramaturgo, cronista e jornalista

Véio Envelhecer é uma merda.
E não me venham com o papo de sabedoria, não.
Envelhecer é muito cansativo. Por tudo isso que eu não saio da envelhescência, que é uma adolescência de trás pra frente.
Tou quase chegando no ginasial.
Espinhas na bunda. E um tesão de amadurecer enorme.
Enviado do meu iPhone.

Mario Sérgio Cortella, filósofo, escritor, educador, palestrante e professor

Em direção às origens “A primeira grande emoção que o tempo de ficar mais idoso me causou foi pensar se, de fato, tinha vivenciado com exuberância aquilo que o Barão de Itararé advertia: a única coisa que você leva da vida é a vida que você leva! Percebi que em alguns momentos anteriores essa advertência foi secundarizada mas que, na maioria delas, a vibração por participar desse mistério, Vida, persistia me encantando. A segunda grande emoção continua comigo e é a certeza de que sempre dará tempo de me impregnar com a inspiração de Manoel de Barros, quando, perto dos 100 anos, dizia que não estava indo em direção ao fim e sim em direção às origens”.

Emanoel Araujo,
Diretor e Curador
do Museu Afro Brasil

Mais vivo do que nunca “Aos meus setenta e cinco anos de idade, mais tempo vivido do que meus pais e meu avós, sinto o sabor da maturidade, da vida vivida com muitos percalços, com muitas pedras no caminho, mas com muitas vitórias. Dei o melhor de mim em todas as facetas que me envolveram e por isso pretendo estar mais vivo do que nunca nesses anos de maturidade.”.
Aproveitar o tempo “Velhice. Que emoções isso desperta em mim?
A vontade de ser mais livre para aproveitar mais o tempo que ainda tenho”.

Regina Braga, atriz

Paulo Markun, jornalista
e escritor

Não adianta prever nada “Não sei se a velhice é o território das emoções. Muitos hormônios simplesmente desaparecem e com eles, vão-se calores e temores que na juventude mais parecem vulcões em erupção. As surpresas também diminuem e com elas, vai-se parte da adrenalina que nos move quando o mundo parece um território desconhecido, ameaçador e desafiador ao mesmo tempo. Mas não pense que tudo é paz, serenidade e aborrecimento na velhice. Apreciamos pequenos momentos, constatamos que não há felicidade eterna e, felizmente, assim espero, condenação definitiva. Família, trabalho, relações pessoais, seguem nos oferecendo emoções, boas e ruins, duradouras ou momentâneas, grandes e pequenas. Entre as novidades, está a possibilidade de prever muito do que antes parecia uma sucessão de descobertas. Mas a principal descoberta é saber que não adianta prever quase nada. O importante, dizia um velho amigo que já se foi, não é ganhar a luta, é saber beijar a lona. Alejo Carpentier, escritor cubano que é considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea hispânica, escreveu certa feita, o seguinte:
… o homem nunca sabe para quem padece e espera. Padece e espera e trabalha para gentes que nunca conhecerá e que por sua vez padecerão e esperarão e trabalharão para outras que tampouco serão felizes, pois o homem ansia sempre uma felicidade situada além da porção que lhe é outorgada. Mas a grandeza do homem está precisamente em querer melhorar o que é. É impor-se tarefas. No Reino dos Céus não há grandeza a conquistar, pois ali tudo é hierarquia estabelecida, incógnita derramada, existir sem fim, impossibilidade de sacrifício, repouso e deleite. Por isso, atormentado por penas e tarefas, formoso dentro de sua miséria, capaz de amar em meio às pragas, o homem só pode alcançar sua grandeza, sua máxima medida, no reino deste mundo Carpentier morreu em 1980, pouco depois de completar 76 anos – velho, portanto. No Brasil de hoje, celebramos o fato da idade média ter alcançado os 75 anos. Tenho 63. Portanto, estatisticamente, posso chegar lá e só durante esse trajeto poderei me impor tarefas e tentar conquistar uma grandeza ou outra, emocionando-me e emocionando aos meus contemporâneos. Isso, se chegar lá. Pois o que a velhice ensina também é que jamais saberemos quando virá o ponto final…”.

Dráusio Varella, médico
e escritor

O envelhecimento nos traz a aceitação das diferenças “Considerar a vida um vale de lágrimas no qual submergimos de corpo e alma ao deixar a juventude,
é torná-la experiência medíocre. Julgar aos 80 anos, que os melhores foram aqueles dos 15 aos 25 é não levar em conta que a memória é editora autoritária, capaz de suprimir por conta própria as experiências traumáticas e relegar ao esquecimento as inseguranças, medos, desilusões afetivas, riscos desnecessários e as burradas que fizemos nessa época. Nada mais ofensivo para o velho do que dizer que ele tem “cabeça de jovem”. É considerá-lo mais inadequado do que o rapaz de vinte anos que se comporta como criança de dez. Ainda que maldigamos o envelhecimento, é ele que nos traz a aceitação das ambiguidades, das diferenças, do contraditório e abre espaço para uma diversidade de experiências com as quais nem sonhávamos anteriormente”.

Wellington Nogueira

Coordenador Geral

 

Doutores da Alegria

www.doutoresdaalegria.org.br

Viver cada momento tem mais slow motion “Sempre brinquei com o envelhecimento dizendo que somos como vinho: com o tempo, ficamos 
mais saborosos, encorpados e muito bons para degustação. É tudo verdade! Mas tem muito 
mais coisa nesse processo. Da liberdade interior maior às vistas mais frequentes ao fisioterapeuta para fortalecer os músculos; fiquei adepto de exercícios e joguinhos para o cérebro; mas me olho no espelho e gosto mais de 
quem vejo e me pego deixando o cabelo crescer, algo que não me passava pela cabeça e que agora, simplesmente faz sentido. Uma pitada de "se eu soubesse lá atrás o que eu sei hoje" que logo vai embora porque o viver cada momento tem mais slow motion e eu aprecio o que antes nem percebia."

Eva Wilma, Atriz

Procuro aprender a conviver com as limitações Durante os últimos dois anos participei de um espetáculo teatral que se chamava Azul Resplendor, de Eduardo Adrianzén. Logo no início da peça eu tinha um pequeno monólogo em que, acendendo alguns fósforos, comentava sobre o clarão que nasce, cresce, se transforma num azul resplandecente até que diminui, se apaga, e morre. Éramos seis atores interpretando os seis personagens da peça e ao final, Blanca Estela, minha personagem, dizia para Tito Tápia: – “Esta noite eu tive um sonho… sonhei que estava deitada numa enorme cama de bronze e procurava a melhor posição para conseguir adormecer. A cama ficava assim dentro de uma caverna e quando comecei a relaxar eu vislumbrei sombras, espectros que passavam por mim e caminhavam apressados, muito apressados, como nas estações de metrô quando as pessoas saem do trem todas ao mesmo tempo… uma delas chegou a esbarrar em mim, e aí eu vi: era a Morte. (PAUSA) E tudo ficou banhado por uma luz azul, de um azul como o mesmo efeito de luz que usamos no teatro para imitar a noite, como o último clarão do fósforo… Aí eu levantei da cama e saí com eles, com os espectros, assim flutuando, e murmurando sonhos… Sonhos que são a matéria de que nós somos feitos… Aí eu cheguei até uma porta, e quando eu estava pronta para entrar meu coração começou a bater com força pela última vez e eu… eu despertei! Ou será que continuo dormindo? Ou talvez… talvez tudo o que eu vivi até agora foi sonho e esta é a minha única realidade?!….” Citei esse texto do espetáculo para comentar a forma poética com que fala sobre a finitude da vida, sobre a morte. Esse mesmo assunto foi tema para outros personagens que tive a oportunidade de interpretar ao 
longo de minha carreira de atriz e, depois de 62 anos de trabalho, não foram raras as vezes em 
que me perguntaram sobre como é, nesta etapa da vida, enfrentar com energia e vigor questões 
tão delicadas… Penso que é simples: procuro aprender a conviver com as limitações e as perdas 
que são inevitáveis. Agora, cá entre nós, às vezes pode ser um aprendizado um tanto difícil, não é?!
Mas não devemos nos esquecer que se pudermos nos sentir bem, mantendo hábitos saudáveis, exercendo o ofício pelo qual nos apaixonamos, as atividades que nos dão prazer, e os laços de afeto que dão sentido às nossas vidas, tudo fica melhor. Para encerrar peço licença para citar Frei Betto, pessoa que admiro muito, e que diz: “Frente à finitude da vida, a plenitude é ser feliz. E nada faz o ser humano mais feliz do que amar e ser amado”.

Aracy Balabanian, atriz

A curiosidade é uma grande amiga “Desde que me conheço por gente penso em aprender, esse sempre foi meu Norte. Acho que isso 
veio da importância que meu pai: um imigrante refugiado de guerra: dava para o conhecimento. Acho que por isso, olhando hoje em retrospecto, não lembro de ter passado pelas famosas crises: 
a da adolescência, dos 30,40,50; menopausa etc. A curiosidade é uma grande amiga que trago pela mão sempre. Enquanto ela estiver comigo terei vontade de aprender, manterei o interesse no outro. Quando deixamos de buscar respostas fora 
de nós mesmos começamos a envelhecer; qualquer que seja a idade”.

Agnaldo Rayol, cantor

"Envelhecer bem é viver a vida como ela me vem”. “Não me preocupo com o envelhecimento. Não tenho nenhum tipo de “grilo” em relação a isso, nenhuma “neura”. Não fico pensando sobre isso, não fico “encucando”. Acho que envelhecer 
é muito natural, muito normal. Apesar dos meus quase 78 anos de idade e 60 de carreira profissional, não sinto o peso da idade, 
não me enxergo como um velho (no mau sentido da palavra). Não tenho problema de saúde sério, o que ajuda. Procuro levar uma vida saudável, cuido da alimentação, não bebo, a não ser um muito ocasional vinho tinto. Talvez me dê uma certa força eu estar sempre viajando, fazendo shows, para públicos os mais variados, conhecendo gente. Adoro fazer show. Gosto muito do que faço. Tenho muitas amizades 
com gente jovem e convivo com crianças. Gosto muito de ler. Agradeço todos os dias por poder 
fazer as coisas de que gosto. Mesmo estando num mundo cheio de más notícias, vivendo cercado de violência, o que me afeta, 
é claro, consigo aceitar as condições da minha vida no momento em que a estou vivendo. Para mim, envelhecer bem é viver a vida como ela me vem”.

Ignácio de Loyola Brandão, escritor

Envelhecer é não parar “Envelhecer é perceber que muitas vezes, a felicidade está naquilo que desprezávamos, o corrimão da escada. E que a mais genial invenção do século é a mala de rodinhas. Finalmente é conseguir deitar-se cada noite, preocupado com o tanto de coisas que teremos a fazer no dia seguinte. Nas memórias da atriz Lauren Bacall, uma das grandes divas de Hollywood, hoje com 80 anos, há um trecho que se aplica a qualquer um de nós: Uma das coisas mais importantes de minha vida foi a sorte que tive de fazer uma montar uma coleção de amigos de todas as idades. Este maravilhoso inventário de amizades me ajuda a seguir em frente. Faço qualquer coisa, o possível e o impossível para conservar um amigo”.