Ana Perwin Fraiman

Psicóloga, psicoterapeuta formada pela Unip, mestre em Psicologia Social pela USP, Doutoranda em Antropologia pela PUC/SP. Atende adultos,
idosos e familiars em sua clínica particular. Pesquisadora do NEF-Núcleo
de Estudos do Futuro, PUC-SP

As dimensões psicológicas e sociais
da aposentadoria

Aquela feiosa

Envelhecer – o que percebemos
e o que passa despercebido

A morte do morto

Um depoimento para o fórum das nossas
verdades sobre o envelhecimento

Desafios da Longevidade e as Políticas de Aposentadoria

As Dimensões Psicológicas e Sociais da Aposentadoria

Quando se conquista o direito da aposentadoria surgem muitos questionamentos: sobre as próprias habilidades e capacidades, sobre a repercussão disso tudo na vida familiar, sobre a saúde, o estilo de vida, os antigos compromissos e as múltiplas e rápidas mudanças e decisões a tomar. Novos rumos serão trilhados e, com eles, novos riscos, motivações e perspectivas.

 

Há sete dimensões existenciais fundamentais a considerar nesta transição, em especial quando ocorre cessação do vínculo de trabalho, demandando empreender novas e específicas dentre muitas que virão, ocasionando alta carga de stress de transição:

1. A DIMENSÃO INTERPESSOAL

a) haverá, com certeza, um distanciamento do grupo de trabalho original, senão no todo, ao menos em grande parte;

b) no círculo familiar, da família de origem e da família atual, ocorrerão mudanças estruturais e dinâmicas com a saída dos filhos e envelhecimento dos pais; as três gerações e, até mesmo uma quarta geração poderá tornar-se dependente e demandar mais cuidados;

c) o esgarçamento do tecido social disponível até na empresa demandará grande e premente necessidade de desenvolver melhor a sociabilidade e recursos de relacionamento pessoal para recompô-lo; surgirão pressões para se integrar a novos grupos e cumprir com novas expectativas sociais, de circular por novos ambientes, com linguagens e códigos muitas vezes desconhecidos e estranhos.

 

2. A DIMENSÃO DO CORPO

a) redefinição dos padrões, expectativas e condutas sexuais, tendo em vista o anseio de preservar uma vida ativa e de prazer, compreendendo as transformações nas esferas do desejo e da própria performance sexual, conduzindo-as para esferas de maior sensualidade;

b) a (re)construção da imagem corporal positiva em virtude detecção de sinais da maturidade plena, meia-idade e envelhecimento;

c) necessidade de incluir mais atenção e autocuidados.

 

3. A DIMENSÃO MOTIVACIONAL

a) será necessário rever a questão da autonomia pessoal, uma vez que a necessidade de ser aceito e aceitar novos relacionamentos e compromissos haverá de impactar na saúde geral;

b) estará em jogo a reconstrução da identidade profissional e/ou ocupacional, em torno das quais foram estruturadas muitas das razões de ser e de viver;

d) os temas e estados concernentes à delegação de poder e revisão do status social serão presentes, tanto na esfera da ocupação, como da família.

 

4. OS VALORES

a) tratando-se de uma época de vida em que o psiquismo realiza um balanço existencial, serão questionados os valores até então eleitos e praticados, para que sejam eleitos e praticados os mais autênticos valores pessoais;

b) ascensão moral e adoção plena conduta ética com maior susceptibilidade aos valores do meio social e do meio familiar, especialmente conjugal;

c) as pessoas tendem a assumir sua autoridade com mais ternura e sabedoria; suspende-se o julgamento para dar lugar à compreensão e busca de justiça e correção;

 

5. A PRÁTICA

a) uma nova definição vocacional e ocupacional poderá fazer-se necessária, agora à luz de uma personalidade mais madura e experiente, passando de competição para a colaboração;

b) adaptações e discernimento quanto a padrão de vida, demandará uma reorientação financeira e econômica, com maiores preocupações e cuidados para com bens patrimoniais;

c) busca de participação e reinserção no mercado de trabalho haverá de requerer atualizações e o desenvolvimento de uma nova visão e dinâmica no mundo do trabalho.

 

6. A DIMENSÃO ESPAÇO-TEMPORAL

 a) haverá um esforço adicional para manter a integridade e evitar a ruptura do horizonte temporal, um continuam entre o antes, o agora e o depois;

b) serão demandadas novas escolhas de atividades e fortalecimento dos vínculos de apoio;

c) será percebida a forte influência do passado e muito temor em relação ao futuro, enquanto se processar o confronto com a finitude da vida, o diálogo com a morte e a busca de sentido para o existir;

 

7. A DIMENSÃO AFETIVA

a) deverão ocorrer identificações muito mais claras das raízes dos conflitos anteriores, com forte presença de sentimentos atuais e vontades conflitantes, o que levará a um caráter instável de reações emocionais e aumento na sensibilidade pessoal;

b) com as novas resoluções amadurecidas, haverá elevação da autoestima e percepção do valor pessoal; serão intensificadas as vinculações amorosas e, talvez o medo da solidão;

c) relações construtivas serão consolidadas e sentimentos positivos serão muito valorizados, senão primordiais, sem mais tolerância para com maus elementos e abuso de confiança.

 

Tem-se, portanto, um quadro de grande complexidade para que aqueles que se aposentam sejam bem sucedidos. O trabalho de orientação para a transição e o pós-carreira, que se realiza nas empresas, deve ser de dupla natureza: cognitivo e de ordem emocional. A prática, no entanto, será determinante, em relação ao grau de autonomia, interesse em empreender as mudanças e proatividade na busca de novas soluções, o que não é o que se verifica em relação à esmagadora maioria daqueles que estão em vias de se aposentar e, muito provavelmente, de serem desligados.

 

Em virtude do pouco conhecimento e parca visão que as pessoas têm quanto ao seu futuro envelhecimento, pessoal, familiar, social e funcional, as respostas que obtivemos da parte de 1.298 aposentandos, em vários setores de serviços, indicam o seu despreparo para enfrentar seu futuro num espaço de 5 a 10 anos, o que os caracteriza como população de alto risco para adoecimento e infelicidade futura.

 

Mediante a aplicação de um questionário que mapeia todos os itens acima apontados nas 7 dimensões existenciais, as respostas obtidas entre os anos de 2010 a 2012 – em homens e mulheres que estão em fase de pré aposentadoria, entre 44 e 62 anos de idade, foram: Quanto aos recursos financeiros: – 86,9% acreditam que estarem preparados para enfrentar sua aposentadoria, desde que não ocorram maiores demandas em relação à saúde. Essa crença não considera ajuda a pais e sogros de idade, netos, nem abalo maior na própria saúde e/ou do cônjuge, mesmo quando à época da aplicação do questionário de mapeamento muitos já estejam lidando com comprometimentos vários de saúde geral, próprios e de familiares. – 48,4% dizem ter capital suficiente, embora ainda necessitem se preparar para enfrentar os futuros anos e velhice. O significado de 'suficiente' não atende ao rigor com que os planejamentos orçamentários devem ser feitos. Uma vez que seja feita pressão para que os executem, as respostas são desanimadoras ao revelar a distância que suas percepções têm das dificuldades de envelhecer num país que não tem serviços públicos de saúde à altura do que vieram usufruindo por intermédio das empresas, os quais haverão de cessar em curto prazo, após seu desligamento dos quadros funcionais.

 

Quanto à vida de relacionamentos significativos e de trânsito afetivo: – 51,6% acreditam que a convivência com o cônjuge mudará para melhor e, 58,2% que sua convivência com a família inteira também haverá de melhorar; 41,0% prevê a preservação de um número mínimo de relacionamentos com os atuais colegas de trabalho. Tais crenças se confundem com seus sonhos e revelam o pensamento mágico de melhoria na qualidade das relações pelo simples fato de estarem mais disponíveis, sendo que a esmagadora maioria das esposas e filhos não convivem bem com marido

e pai sem atividade própria, permanentemente em casa. Quanto à perda da rede social de convivência no trabalho, isso significa estarem desavisados dos riscos de depressão por perda do grupo de referência e de pertença, esteios da saúde mental. Em relação ao seu apego ao modo de vida e trabalho atuais: – 59,9% ainda pretende permanecer por muito tempo na empresa, desejosos de realizarem maiores contribuições nas suas esferas de trabalho; 55,0% procuram se atualizar de diversas formas. Ainda que já sintam na própria pele estarem em desvantagem quanto aos investimentos que as empresas fazem em seus treinamentos, privilegiando os mais jovens e bem graduados, em detrimento daqueles que têm mais idade e muito tempo de casa, ainda mantêm a esperança de virem a ser aproveitados, senão permanecendo na própria área, por empresas do mesmo setor, o que se tem mostrado altamente improvável. Mesmo quando convidados a fazer curso que os prepare para serem tutores dos mais jovens, permanecem inertes e alegam 'não dispor de tempo' para agregar mais um desafio a esta etapa de suas carreiras, devendo primeiramente cumprir com suas tarefas e obrigações atuais.

 

E, quanto às atualizações, referem-se primordialmente ao cumprimento do atual papel profissional, através de revistas e artigos especializados, sem atentarem para o fato de que, a concorrer no mercado, estarão em desvantagem por serem considerados 'sem perfil' para novas contratações. Praticamente nenhum deles sabe redigir seu CV, nem tem ideia de como se estabelecer por conta própria e o que negociar em uma nova atividade profissional, no mesmo ou em outro setor de serviços. Este panorama nos permite indicar que os programas de transição e de preparo para a aposentadoria e pós-carreira tenham início muito antes do que têm sido realizados – onde a idade de corte é muito alta e próxima à aposentadoria – merecendo ser oferecidos a todos que estiverem na faixa dos quarenta anos, ainda com tempo de reverem seus posicionamentos e se educarem para uma longevidade com sustentabilidade.

Aquela Feiosa

Viveu a vida ouvindo ser feiosa. Visitas, em sua casa, representavam o vexame de ser apresentada está é aquela minha filha de que lhe falei. Nem mais carecia do olhar enviesado para baixo, da boca torta ao sussurrar a feiosa, muitas vezes captada, pelos seus argutos ouvidos! Gravado a ferro e fogo em seu espírito, o cognome saltava-lhe à mente, sem nem ser pronunciado, sempre e sempre que alguém a ela se referia. E mesmo quando não o faziam, não precisava, ela sabia.

 

Ela se enxergava. Sabia ser feiosa, a mais feiosa dentre as demais meninas, as dentuças e banguelas, quatrolhas ou narigudas e, mais as gorduchas ou magrelas, sardentas ou branquelas. Altas baixas, negras, japas, barrigudas ou sem-bunda, nada, nenhum nome pelo qual qualquer delas fosse distinguida, lhe parecia mais vergonhoso que o dela. Chegava a sentir-se culpada pelo acontecido.

À noite rezava para que Deus tirasse de seus ombros tal castigo e vivia seu minuto de esperança. Rapidamente, adormecia para não perder o doce embalo que tal alento lhe trazia. Nutria-se das pequenas esperanças que todas as noites lhe nasciam. Isso, até adolescer, quando tudo que as manhãs mostravam era uma nova espinha em seu rosto já tão transtornado e os peitinhos que já brotavam, marcando suas blusinhas de cambraia, que não mais fechavam direitinho.

 

Peitinhos pequenininhos, ainda não de mulher, mas já longe de serem de menina, que a envergonhavam mais ainda. Ah, e a tristeza, que despertava também, junto com as dores todas

suas conhecidas. Dor nas juntas, dor de dente. Às vezes ocorria, de repente, dor mensal e, principalmente, a de cotovelo, que mais a incomodava. Era diária. Chás disso, chás daquilo, todas as dores, elas passavam, menos aquela que a marcava tão gravemente como diferente. A dor de ser feiosa. Feiosa externamente. Era o que importava. Suas esperanças noturnas sendo minadas. Deus não ligava a seus rogos e já tinha esgotado tudo que sabia sobre rezas e orações. Na busca de conforto, às vezes se convencia e se dizia, bem baixinho, para não ter que suportar mais a feiura de ser maledicente, dizia para si mesma que Deus era surdo. Ou que falava noutra língua, que um dia ela própria aprenderia, que inteligente, muito, era.

 

O tempo foi passando e sua cara não mudava. Fosse bonita, teria rostinho, feições talvez. Mas, não. Tinha cara, onde a feiura só se acentuava e a perseguia aonde ia. Culpa sua? Não sabia, mas a culpa a acompanhava. Por não saber rezar direito. Por não merecer um milagre. Por ter nascido daquele jeito. Por não gostar da mãe que tanto a machucava. Sua mãe, tanta beleza tinha. Na voz, nas vestes, nos gestos, nos gostos, beleza que se transmitira para as outras filhas. Lindinhas, mignonzinhas, loirinhas, delicadas todas as quatro, a mãe e as três irmãzinhas, das quais destoava desde que, pela primeira vez, o ar entrara em seus pulmõezinhos e, na sala de parto berrara, seu único e legítimo protesto por haver nascido. Foi só fazer-se menininha que suas sardas se alastraram. Seus cabelos não cresciam. Suas mãos ásperas, que quebravam as louças finas e que não pintavam, nem bordavam, nada em sua pessoa era feminino. Até os dedos de seus pés mais e mais e retorciam e, com isso, não dançava ballet, não tinha um bom equilíbrio, como suas irmãzinhas. Só fazia se encolher. Cada vez mais estabanada e ainda mais feia se tornava. Era uma família de beldades, aquela. Todas as moças pequenas, porém muito belas. Menos ela, a feiosa. A inveja deu o braço à culpa e, atreladas, ambas a atormentavam. E quanto mais o faziam, mais de sua bela mãe ela bem tratava. Servia-lhes o chá na linda sala, onde bem trajadas, quando moças se encontravam.

 

Eram pródigas e graciosas em suas conversas da tarde, para contar dos bailes e dos namoricos. Fazia doce e confeitos decorados, quase perfeitos, para oferecer-lhes enquanto riam e, descuidadas, contavam seus viveres amorosos, que para ela não cabiam. Ao menos, ouvia. Falavam de flertes, presentes, alguns beijos roubados e, muitas intimidades consentidas, prazeres com que nem sonhava, pois mesmo em sonhos não deixava de ser muito feia e, nos bailes, a que sobrava. Tratava-as bem, a sua mãe e irmãs e todas as amigas belas. Tratava-as mais do que bem, como que a tentar roubar-lhes e guardar consigo, ao menos na lembrança de seus ouvidos, um pouco de seu riso fácil, de sua leviandade, pois em sua vida tudo era grave, tão mais sério e grave quanto sua feiura que crescia, conforme ela amadurecia em sua solidão de moça feia, ficando para tia. Culpa e inveja, eternas companheiras, gravaram precoces rugas em seu sobrecenho e nos lábios frios e duros. Sua voz rouca, nem mais se pronunciava. Era em silêncio que trabalhava e servia. Servia. Servia, já que para nada mais prestava. Assim, viveu até seus cinquenta anos. Sabe-se lá porque, nem tudo tem explicação.

 

Um dia, meio que desavisada, tão vazia, tão entediada andava, se esqueceu de si na vida e ali ficou, em meio ao parque, horas a fio, simplesmente olhando aqueles que passavam, as crianças que brincavam, os jovens que brigavam, corriam, gritavam, cantavam, qualquer coisa. Faziam o que, simplesmente, os jovens em todo o mundo fazem. Nem percebeu que sorria. Tivesse notado, teria brecado aquela ousadia, extrema liberalidade para quem, como ela, graça nenhuma achava em nada, nem bom sentimento algum ainda sentia. Sorria assim, totalmente à toa. E ali ficou sem essa nem aquela razão que justificasse. Ficou por ficar. Deixou-se estar. Sentiu-se tão bem, sem nada por dentro que, pela primeira vez na vida encontrou-se bem consigo própria. E, por inocente e livremente, as demais pessoas em sua volta, também, lhe sorriram. Foi tão inesperado e doce, e belo, que ela mesma se sentiu mais viva. E linda! Ficou quietinha, bem parada, conhecendo pela primeira vez a leveza da beleza. Nem sabe o tempo que ali restou, até começar a se mexer e deixar o parque devagar, caminhando com passos de pluma, como que flutuando ao saber de sua descoberta, para chegar a casa. Em meio à maior tragédia. Sua mãe desfalecera? Não se sabia. Somente que caíra e rolara a escadaria. Suas irmãs, descabeladas, tinham nas faces a estampa do desespero. Suas faces retorcidas, grotescas. Aquela choradeira, pela mãe de pescoço destroncado

e crânio esfacelado, no chão esborrachado. Não entendia para que tanta gritaria, já que ela mesma nada sentia. Nenhum sobressalto, nenhuma novidade, já tinha visto aquela cena cem, mil, um milhão de vezes. Só a surpresa ao constatar que, de verdade, era mais barulhenta e desagradável que nos sonhos. Bem menos satisfatória que em devaneios. Fitou o rosto de cada uma delas, parecendo caricatura borrada de tempos já idos. Achou-as feias, muito feias e sem sentido.

 

Uma reunião de mulheres choronas que urravam a perda da mãe que, há muito, já deveria ter partido. Foi a única que se aproximou, a tentar erguer do chão a mãe desfalecida, toda ensanguentada, já morta, embora ainda respirasse. Quis, também, como por hábito, contar-lhe de seu passeio. E, talvez, timidamente, pensou, contaria sua descoberta. O milagre acontecera. Quem sabe a senhora sua mãe a redimisse da feiura toda, lhe desse a benção de vê-la com novos olhos! Mas a choradeira de suas irmãs não permitia. Pode, somente, encostar seus ouvidos à boca da moribunda, que balbuciava: – Tive medo, a vida toda tive medo de que exatamente isso me acontecesse! Que tivesse que expirar nos braços de minha filha feiosa! E morreu bem rapidinho, em seguida, cobrindo a filha com sangue gorgolejado, tossido e cuspido. E com mais nada.

 

 

Envelhecer - o que percebemos e o que passa despercebido

O envelhecimento humano, ou melhor e, sendo bastante honesta, penso que o nosso envelhecimento é uma estrada de muitos sinais e, alguns deles, escondidos por detrás das pedras e das árvores ao longo do caminho. Só depois de passarmos é que nos apercebemos de que estamos viajando na contramão e que outros estão reclamando. Mas não deveria ter sido sinalizado? Curva perigosa ou pista escorregadia? Não adianta reclamar. Se pegarmos a pista errada e, mesmo se prosseguirmos na mesma pista, porém em velocidade errada, os outros vão reclamar.

 

Que as maiores evidências do envelhecimento não são perceptíveis aos nossos sentidos, a menos que estes outros concordem e, que também nos apontem o que se passa conosco. As placas estão sempre lá. Nós é que padecemos da cegueira de não enxerga-las, tal a distração com que caminhamos pelos desvãos da vida. Ou nos tornamos surdos, além de cegos, porque os assinalamentos não nos favorecem. Ninguém dirá a um velho (ôps, idoso!) puxa, como você está elegante! Emagreceu bastante. Fica melhor, assim. Não. Esqueça. Vão lhe abordar desculpa, é que eu gosto tanto de você que não quero deixar de perguntar, você está bem? É que você emagreceu tanto...

 

Um conhecido meu levou um baita susto. Ligou para mim ainda desconfortável, sem saber como se enquadrar direito em seu novo status. Envelheci! Ah, então tá. E quando isso se passou? Hoje. Como, assim, hoje? Você ainda não tinha percebido? Não. Eu não me achava velho. Quantos anos você tem? Setenta e seis. E não se achava velho? Não. Uma dor aqui, um cansaço maior ali, sabe como é. Mas velho? Não. OK. Então me conta. O que aconteceu que você envelheceu? No metrô. Caminho de sempre, horário perto do pico. Fiquei em pé, apoiado nas barras. Uma senhora tocou meu braço e atenciosamente me ofereceu o lugar. Aceitei. Até aí nada de novo. Estava cansado. Essa correria, esse calor. E? Sentou e envelheceu? Não. Foi nuns minutos depois. É que fiquei observando e vi que aquela senhora não desceu no próximo ponto. Nem no outro. Ficou em pé, um pouquinho mais para frente, por umas quatro ou cinco estações. Só depois, a porta se abriu e ela foi embora. Então ela levou seus restos de juventude com ela? Fosse só isso (suspiro). Dá para deixar de ser jovem, isso eu aguento, mas passar a ser velho, ah, não, é pesado demais! Só porque ela lhe ofereceu o lugar para você sentar? Não, você não entendeu? Quando as pessoas estão no ônibus, no metrô, são gentis. A gente sempre oferece o lugar quando vai saltar. Mas ela, não. Ela não ofereceu. Ela se levantou e cedeu o lugar para mim! Uma senhora em quem eu já tinha reparado, meio bonitona ainda, mas é que eu a achei velha. Ela. Mais nova que eu. Fiquei derrotado. Em que momento, por qual desvio, a hora exata de envelhecer, pouca gente sabe quando acontece. Até porque se pode envelhecer de uma hora para outra, mesmo quando se é ainda bem jovem. E porque se pode rejuvenescer na alta velhice, quando se encontra por fim, ou perto do fim, um grande e verdadeiro amor. Ocorre que, sim, não somos as melhores testemunhas de nós próprios.

Os primeiros fios de cabelo branco, jamais são percebidos quando despontam. Eis que um dia, escovam-se os longos e o sinal grita tão alto, que nossa mente distraída sofre um sobressalto. Um cabelo branco. Ou dois. Ou três.

 

O fato é que aquele estigma veio crescendo sorrateiro, crescendo muito, se alongando por anos e anos, feito lombriga bem alimentada. Ninguém sabe e ninguém vê, até que a dor de barriga aperta e você vomita sem parar. Não é no primeiro antiácido que se desconfia de um habitante parasita malfeitor. Exame de fezes, só depois de um bom estrago. Assim é a velhice. Ela parasita em nós, em nosso corpo e em nossa mente e tudo que se vê são as rugas, que podem ser disfarçadas. As peles secas, que podem ser hidratadas, as manchas senís, que podem ser congeladas. As unhas que endurecem e os contornos que não mais são firmes. Estes, as cintas resolvem. Ao menos para consumo imediato e sair bonita na foto. Homens encolhem suas barrigas e seus sorrisos quedam gravados nas fotos para as quais posamos quase sem fôlego. Não. A velhice vai entrando em nossos poros e se instala em nossos ossos, enquanto insistimos em levar vida de segunda idade, quando já passamos longe do ingresso na terceira. Amigos idosos são acolhedores e complacentes uns com os outros. O afeto e a discrição, seus ouvidos doces para filtrar as papagaiadas que vivemos enquanto não sabemos direito que, de fato, já envelhecemos. Os amigos, sim, eles nos dão guarida e afirmam que as coisas não são tão ruins assim. Riem mansamente de nós e sorriem intensamente para nós. Nossos amigos são antídotos contra as dores morais de envelhecer a meio caminho e, pior, fazê-lo sem nem perceber.

 

São as tais das placas escondidas pela estrada da vida que nos avisam cuidado, perigo de queda no lar. O lar, nosso porto mais seguro, torna-se o ambiente principal onde se dão as quedas e, muitas delas mortais! Nossa cozinha escancara suas bocas de fogo, para nos queimar ao menor descuido, naquele fogão onde fritamos tantas batatas para nossos filhos, netos e seu convidados, batatas que agora necessitamos simplesmente ignorar. O que era aperitivo delicioso passou a ser veneno horroroso, por que... Ora, por que ficamos velhos e vivemos pensando em não enfartar, em não derramar, em não escorregar. As trilhas pelas quais corremos desavisadamente, agora são percursos que traçamos cautelosa e muito mais lentamente, para não tropeçar. Os prazeres são mensurados, tanto quanto medimos pressão e contamos as pílulas azuizinhas, amarelhinhas e branquinhas pelas manhãs, no almoço e ao deitar. O tempo de reação fica mais lento, enquanto o tempo de vida escoa célere. Nós não percebemos, embora as placas sinalizadoras estejam sempre lá. É preciso que uma senhora ceda seu assento a um cavalheiro. Ou que um neto não nos queira em sua balada ou que estranhos se atrevam a nos chamar vovó. Com todo o amor do mundo, uma adolescente diz meu avô? É um fofo. Aquele garanhão, aquele executivo poderoso, aquele professor fera... Coração mole e modos macios, todos viram fofos. Ursinhos carinhosos. E riem à toa. Isso, caso tenham sabido envelhecer bem, mesmo sem nunca haver estudado, pesquisado ou refletido sobre como se faz. Faz-se, simplesmente. As vovós contadoras de história e fazedoras de bolinhos de chuva, estas são muito queridas, mesmo quando não sabem mexer no computador. Mas ousemos nós, os velhos (ôps, idosos), insistir em nossas vontades férreas ou em nossas condutas mais antigas, ousemos nos colocar de exemplo, ai de nós, teremos entrado na pista errada e em alta velocidade. Tudo que aprendemos tem e faz sentido unicamente para nós próprios. As melhores louças de porcelana e os mais caros cristais preservados, assim como nossos inúmeros álbuns de retrato, não valerão um centavo para ajudar a pagar o passe desta estrada para o além.

 

Nada deixaremos, a não ser a sombra daquilo que fomos um dia, plantada nos corações dos nossos amores, enquanto eles conseguirem se lembrar de nós, porque também isso se acaba. Daqui a cento e vinte anos, nada do que se viveu importa. Nem o de bom, nem o de ruim. Para envelhecer, então, precisamos muito dos outros. Não para ver as suas mudanças implacáveis e pensar que o mesmo esteja se passando conosco, mas para que eles nos ajudem a perceber as nossas e, quem sabe, um conselhinho aqui, uma dica dali, consigamos escolher o que tem real valor, abrindo mão daquilo que não mais importa. Filosofia ajuda, tanto quanto uma cataplasma. Conversa boa, ô, ajuda mais ainda. Abraços, nem falar! Depois que envelhecermos, é possível, que não reste nenhum dos nossos fiéis e queridos amigos para nos prantear. Talvez sejamos nós que seguiremos ao pé de seus túmulos para honrar suas doces memórias. Confesso não saber como envelhecer, muito menos como envelhecer bem. Porém, enquanto me reste uma pequena ilusão de que sou jovem, não pensarei na morte a não ser como a derradeira Boa Amiga, entregando-me a seus braços, já cansada de viver tão na contramão, a ponto de me perder de vez e sumir em paz, muito tranquila e confiante no futuro, como sempre fui, enquanto mantive a minha alma de criança. Sabe, tipo, viver com bravura, coragem e sem pensar demais e, morrer delicadamente sem nem perceber?

 

 

A morte do morto

Minhas considerações sobre aquilo que não sei: O suicídio.

Por Ana Fraiman, junho de 2015.

 

O suicídio está mais para o moral e o legal, que para a saúde. Além do que, é uma das poucas coisas, em pé de igualdade com o prazer sexual auto concedido, que uma pessoa pode – quando consegue – fazer por si só: uma afirmação peremptória de dispensa e negação do ser gregário que gostamos de acreditar que somos.

 

Um dos problemas que se colocam para os pós-suicidas (ou seja, os ditos suicídios mal sucedidos, exatamente aqueles que resultam em mais vida pós-suicídio) é o impacto desmoralizante que o sucede. O sentimento de não ter conseguido se matar direito.

De haver decepcionado-ferido-assustado-ofendido os relacionados, gente que acode ou não acode porque fica com medo, com raiva, com pena, com desdém. Ou remorsos e culpas cabidas ou descabidas.

 

Um perrengue que sobra para tudo quanto é lado. Pavoroso de enfrentar. Pior ainda quando ninguém toca mais no assunto: uma desonra total. Como assim?! Ninguém mais fala sobre?! As famílias acobertam e os suicidas mal sucedidos se perguntam se seus amigos teriam já passado por experiência tão limítrofe. E quem pode confiar neste ser que sobra da morte, quando a pessoa, ela própria deixou de confiar em si propriamente?

 

Pior que o suicídio é o acobertamento que se faz sobre o ato, que sempre e posso afirmar que sempre se anuncia. Com ou sem alarde. Com ameaças gritadas ou pequenas palavras, pequenos gestos, olhares desesperados que se disfarçam e ninguém viu ou não conseguiu ver e que depois, se revelam tão amplificados! Os próximos, os ditos íntimos veem, sim. E ouvem, também.

A questão é se o que foi visto e ouvido, de diferentes formas e, por diversas pessoas, terá sido percebido e registrado. Vai ver que olhos e ouvidos se esqueceram de informar ao cérebro, ôps, à mente, o que captaram. Ou vai ver que o cérebro, já entorpecido pelas dores tamanhas e seus apanágios, já estava lento demais para responder à mente o que os olhos viram e os ouvidos ouviram muitas vezes. Olhos turvos, ouvidos moucos e bocas secas. Mas os anúncios estavam lá. Por horrendos, ninguém os teria levado à sério? Nem o próprio interessado?

 

Não se fala do medo que o suicida mal sucedido alimenta dentro de si. Nem antes e muito menos depois, um medo justificado de vir a se matar de novo a qualquer baixo astral que o acometa. Como o pânico. Mesmo depois de superada, médica e medicamentosamente, a síndrome do pânico tem como sequela psicológica o reviver - ah, a memória é mais lenta para se atualizar, que as vísceras,

os ossos e as carnes – os sufocamentos, os batimentos cardíacos acelerados, o terror de vir a ser enterrado como indigente.

 

Os comportamentos cognitivamente bem, adestrados respondem bem e a pessoa passa a evitar os estressores. Reconhece os sinais e trabalha dentro de uma nova programação mental. Mas com o sensorial e, mais além, com o universo ultra sensível, recordar o medo de morrer é voltar a sentir,

é presentificar o medo de morrer. Tal como a síndrome do pânico, o mesmo com o suicídio.

O suicídio, gestos e sentimentos, pensamentos e toda a entourage, retornam feito fantasmas que assombram. E, vai que a pessoa não se aguente?! O pós-suicida pode se ressentir mais de vergonha e de culpa, do que por haver perdido o medo ou o desejo – ambos se equivalem - de se matar de novo. Que morrer é simples. É um alívio. Talvez uma melancólica despedida. Só que, no pós-suicídio, resta o não mais querer ferir os outros, chocá-los tremendamente ao haver sacudido a estabilidade de suas próprias mentes, percepções e sentimentos.

 

Ah, os amigos íntimos e familiares se angustiam: como eu não vi? Como eu não percebi? Ignorando uma verdade verdadeira: uma das coisas mais difíceis é conhecer, é penetrar o âmago de uma pessoa. Tão difícil, mas tão difícil, que a gente se acomoda ao pensamento, quase certeza de que a gente conhece bem, ô se conhece, a pessoa com quem vivemos há quarenta cinquenta anos! Como não, se estamos juntos, se partilhamos mesa-cama e banho? Conhecemos nossos filhos e nossos netos e nossos esposos. Mas não nos conhecemos.

 

Segundo o nosso paradigma da Criação do mundo, a primeira coisa que Adão e Eva se perguntaram foi quem és tu?! Se não foi a primeira, foi a segunda ou terceira. Eu não estava lá para saber e mesmo que estivesse, minha memória poderia me faltar. Gosto de acreditar que a grave questão Quem és tú? Seja a primordial, nem que tenhamos que despencar do paraíso para tentar respondê-la. Se eu não consigo responder nem para mim quem eu sou, quem sou eu para querer responde-la a você?!

 

Pois bem, o suicídio esfrega em nossa cara, ôps rosto, que a gente não sabe quem são os nossos queridos e amados. E quem é a gente, para fazer o que fez e não fez direito porque acabou permanecendo por aqui. Vai saber! Êta perguntinha infame, quem ninguém responde, a não ser filosoficamente: sou o devir. Pronto. Deus é que resumiu bem a história, quando disse Sou o que sou. Perfeito, isso. Só mesmo Deus para ter respondido com tal majestade. E maestria de Ser.

Ouso afirmar que muita gente não se suicida de novo pelo fato de não ter sabido fazê-lo de primeira, do que fica o restolho e patético sentimento de auto desmerecimento, do tipo nem isso eu consigo. Ou vai ver que deus é que não me quis ainda ao lado dele, que me mandou de volta, uma missão a cumprir and so on. Vale concluir qualquer coisa, que cubra com o seu manto de certeza o descobrimento de que todos são capazes de viver com lucidez o próprio surto psicótico que, para uns resulta em mais vida e novas reflexões e aguentares. E, para outros, resulta num conveniente apagamento, num tô nem aí, num quero nem lembrá. E blablablá, as patetices de sempre. Ao menos desta vez.

 

Penso que pior que tudo é o silêncio estarrecedor, a vergonha e a criminalização do suicídio. As suspeitas policialescas de que os mais próximos teriam induzido ao pretenso ato.  Insano por parte do suicida bem sucedido, infame por parte dos herdeiros sanguessugas e interesseiros. Ah, angustiantes autópsias obrigatórias: terá sido uma azulzinha a mais? Terá sido asfixia por travesseiro? Bolha de ar na veia? Veneno de rato? Over dose? Gás de cozinha? Empurrão escada abaixo? Sexo mais do que pleno?! Tem carta de despedida? Testamento. Ó céus, ó dor, uma longa via crucis.

E, pior. Hoje em dia não temos nem a visão horrenda do corpo do suicida sendo arrastado pelas ruas, corpo esquartejado e exibido em praça pública, empalado e dado de comer aos corvos. Ou abutres. Práticas de não tão antigamente - leiam os alfarrábios - que castigavam a pessoa e a honra do morto auto assassinado, para mostrar a ele ou ela, que não deveria ter feito aquilo consigo!

Papai do céu castiga e os delegados se vingam de quem não acata a obrigatoriedade de permanecer vivinho da silva a qualquer custo. Ao menos, antes isso ficava bem claro, para quem quisesse ver. Inclusive as crianças. E olha que olha, as gentes adoravam pasmar e vomitar frente a tais espetáculos públicos de trucídio, o corpo conspurcado agora feito em picadinho para exibição póstuma. Hoje, nem isso.

 

Duas mortes, então? Uma, o assassinato de si cometido em vida pelo morto ou pela morta. Outra, a morte infligida pelas autoridades ao morto ou à morta, mais horrenda que a primeira, que mortes simples e limpas não se prestam muito bem aos ás e ós delirantes dos passantes e observantes.

Alguém entende ou ao menos aprende alguma coisa com tudo isso? Eu, não.

 

 

Um depoimento para o fórum das nossas verdades sobre o envelhecimento

Segunda, sete de setembro. Aproveitando a tranquilidade de um longo feriado, atendo em meu consultório. Pela manhã, o pai. À tarde, mãe e filho mais velho de uma família do interior, que anda atarantada com seus quatro filhos nem-nem. Acabo de saber, pelo pai, que o folgado-mor decidiu não mais vir, por que eu sou caduca. Assim ele me vê e o pai, constrangido e consternado, me entrega essa pérola de sabedoria. De tão imbecil, caio na gargalhada e ele, surpreso, ri junto comigo. Não sou tão aficionada aos aspectos transferenciais. Aceito que um jovem preguiçoso, cujos pais lhe concedem o direito de enlouquecê-los, me chame caduca. E aceito que o pai relate os desvarios de seus filhos sem com isso desejar me agredir. Acho engraçado e não ligo. Relato por curiosidade. Fazer o que? Já chamou, não é?

 

Saio contente de uma proveitosa sessão, após a qual tenho encontro marcado com meu marido em um supermercado próximo. Ele tenta dar conta de uma pequena, mas complicada compra. Muitos itens de várias sessões. Bem, nem tantos assim. Lista bem feita. Supermercado pequeno, bastante conhecido, fácil de uma pessoa idosa e de tirocínio já comprometido se localizar em meios às gôndolas não tão altas. Nem tão cheias. Preços razoáveis. Atendentes prestativos.

 

Chego ao supermercado feliz da vida. Compras encaminhadas. Meia lista já batida. Falta pouco. Pretendo chegar a casa, terminar um almoço perfumado e gostosinho que deixei encaminhado, depois ler um pouco e, quem sabe assistir a um filme básico, sessão pipoca em nossa casa mesmo. Vida prosaica, tudo bem controlado, cumprido o programado. Até que.

 

Uma dor forte, paralisante, se instala dentro do meu peito, lembrando-me ser passível de morrer e logo. Neste último mês estive dialogando com o meu organismo, a partir de fortes dores no peito, na altura do externo. Estarei sob o risco de enfarte? Sim, com certeza. Dói. Demais, dura por alguns minutos. Dor assustadora, que se irradia pelos braços, numa onda eletrizante. E congelante. Daquelas de roubar o sorriso e arregalar o olho. Não sem levar a mão ao peito.

 

Na primeira vez, em casa. Preparava-me para sair. Para onde? Consultório, claro. Ou talvez não tão claro. Explico. É que tenho saído tão pouco para me divertir, que ando vestindo minhas melhores roupas para trabalhar. Anima. Precisei sentar-me à cama e aguardar para saber se teria ou não morrido. A dor passou, deixou-me trêmula e abalada. Mas que foi isso?! Que coisa?! Trata-se de um protesto, vocês percebem, pois não? Como assim, uma dor desse jeito. Aguardo até que os tremores passem, até que a cor – desbotada - do meu rosto se recupere e, que minha respiração desacelere. Pronto! Ninguém sabe ninguém viu. Vou não vou. Fui.

 

Saí de casa pé ante pé. Acho feio morrer, assim de repente, justo no quarto do casal e ao pé da cama, meio vestida, meio despida. Marca para sempre. Iria assombrar demasiado. Meu marido deu de ver fantasmas. Verdade. Ele vê. Já imaginaram? Eu morta, ali dentro descabelada, pronta para puxar-lhe os pés? Todos os dias. Não vou fazer isso com ele. Não em casa, justo no nosso quarto. Isso não. Levo documentos comigo, penso em pegar taxi, mas decido sair guiando. Não havia morrido, acabou. Depois eu veria. Negação? Analisem vocês. Comentei para minha secretária, que de pretinha ficou cinza. Muito querida ela, mas garanti que já estava bem. Trabalhei bem ao longo do dia e me calei.

 

Uma semana depois, de novo. Também em casa. Menos forte, pensei... Hum, a dor está cedendo. Cogitei de ir ao médico. Pela manhã, minha empregada me passou pito. Reconsiderei e marquei médico, mas esqueci de ir. Na madrugada seguinte acordei com dor. Ou melhor, a dor me acordou.


Coração apitando feito sirene. Fui ao meu analista. Contei, como se nada fosse. Ele esbugalhou o olho, também. Não se atreveu a passar pito, nem deveria. Não é tão íntimo meu assim. Ao menos não me vê de camisola, descabelada pelas manhãs. Somente, com muita delicadeza, pediu-me que eu o ajudasse a cuidar bem da paciente dele. Aceitei de bom grado. Adoro ajudar pessoas.

 

Remarquei médico para o dia seguinte e fui. Direitinho. Ele me olhou muito sério, mas não esbugalhou olho. Deve já ter visto de um tudo. Gostei dele. Começou a saga do buscadaquiedali. Exames e mais exames. Angina? Por certo. Eletros, exame de esforço. Holter. Nenhuma alteração significativa. Retomo a saga. Um saco, parar com tudo para cuidar de mim. Mas havia prometido ao analista. Promessa é dívida. Não por mim, mas por ele. Marido, sem saber de nada. Filhos, muito menos. E se não desse nada mesmo? Eu me tornaria pititosa. Isso não! Cardíaca insana, sim, pititosa não! Decididamente. Esse negócio de pititose foi descrito por Myra y Lopes, sabiam? É, foi.

 

Até esta segunda. Bem em meio às compras tranquilas. Meu marido, você está bem? Claro que não estava. Arfante, vertida sobre mim mesma, estancada num dos corredores, toda trêmula. Lágrimas escorrendo. Medo. Juntou gente. Dá para você andar? Melhor não. Traz uma cadeira. Sentei. Querido, chama uma ambulância, estou enfartando.  Corre-corre. Uma moça loira, tipo anjo, permaneceu de pé a meu lado, me abanando. Parecia saber o que fazer. Outros, olhando em silêncio. Não sei se senti vergonha, só um pouco. Não é um bonito espetáculo, mas foi um bom desempenho. Começou a chover, ambulância chegou. Eletro ali mesmo, injeção, pressão. Prontos socorros! Fui de ambulância para o hospital. Senhora de 60 anos acusa fortes dores no peito, já está investigando...

 

Tive fôlego para corrigir, abrir o zíper e entregar meu cartão do plano de saúde. Judia morre segurando bolsa. Não são 60 anos. Faço meia nove em duas semanas. Enfermeira corrige suas primeiras informações. Ouvia o cair da chuva. Não pareço, insisti, mas já vou para os setenta. Será que vou mesmo? Pelo jeito, provável que não. Ich, precisava terminar isso, isso e mais aquilo. Não tive medo de morrer, senti pena de interromper. Chato isso, sair no meio das coisas, deixa-las inacabadas. Mas se é assim, então, tá. Fazer o que? A morte ocorre quando ocorre. É só se deixar levar. A coisa mais importante talvez, depois que se nasce, é a transformação final. O desaparecimento total. E sobre isso, há pouco ou nada a fazer, nenhum esforço pessoal a somar. Que coisa. O mais transformador é o mais simples de executar. Sem ensaio, sem senão. Só observar e não resta ninguém para contar. Nada a declarar. É tão... Tão pessoal e íntimo esse negócio de morrer.

 

Não foi desta vez. Deu tempo de fazer o cateterismo e assistir aos médicos me dando os parabéns. Felizes e me cobrando felicidade, também. Não a sentia. Fiquei aturdida. Achei que, se não morresse, sairia do procedimento com meu coração consertado, zero bala para mais um tempo, sei lá quanto. Só que, o meu coração se conserva zero bala, não necessita de conserto algum! Onde já se viu isso?! E as dores? Pitís? Ah, não, tudo menos isso! Stress. Bem, falta pesquisar se é espasmo do esôfago. De onde vem. Começa tudo de novo. Chorei. Prefiro ser chamada caduca, que manhosa.

 

Merda, merda, merda. Sim, maravilha, meu coração é de jovem. Fôlego curto pode ser de ansiedade. Só que não sei de nada do que acontece comigo. Enfermeira meiguinha acaricia o dorso da minha mão e faz cafuné em minha cabeça (cafuné se faz em algum outro lugar?), diz-me ao pé do ouvido não deixa as dores da alma chegarem ao seu corpo. Cuida da senhora. Comecei a chorar e chorei muito. Agradeci por mais esta bronca de D’us, que me intima a viver melhor. Que nem meu analista. Ah, antes de me deixar cateterizar, declarei haver feito testamento vital, em alto, claro, simples e bom tom. Recitei para os médicos presentes e para toda uma equipe meus termos de fim de vida. Foi de verdade e lembrei muito de todos vocês. Vivi para contar. Vale a pena fazê-lo. Dá mais segurança nessas horas onde você sabe que vai, mas não sabe os termos da volta. Eles prometeram cumprir.